Agência Estado
De Brasília
Minutos antes de se dirigir ao que seria seu último encontro com o presidente, na condição de ministro, Clóvis Carvalho não colocou o cargo à disposição, mesmo quando isso lhe foi sugerido. ‘‘Eu compreendo a decisão de ser demitido, mas não será a meu pedido’’, disse Carvalho a Fernando Henrique ao final da conversa da madrugada de hoje.
A conversa no Palácio da Alvorada não teve testemunhas. Começou por volta das 23h20 de sexta-feira, num tom de compreensão, com ambos, ministro e presidente, concordando com os prejuízos políticos causados pelo discurso de Carvalho, ocorrido na véspera, durante seminário do PSDB. Mas Fernando Henrique não disse, até minutos antes do final do encontro, que queria demitir o ministro, provocando a iniciativa deste.
‘‘Ok, presidente. Me diga o que o senhor quer?’’, perguntou Carvalho, de forma direta, para concluir a conversa. ‘‘Gostaria que colocasse o cargo à disposição, que eu aceito’’, respondeu imediatamente Fernando Henrique, provocando reação imediata do ministro. ‘‘Tudo bem, mas não será a meu pedido.’’ O presidente acabou, então, concordando em arcar com o ônus da demissão, sem um pedido formal encaminhado por Carvalho.
Ainda em Fortaleza, ao sentir pesar o clima de constrangimento criado por seu discurso, já durante almoço com o governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), Carvalho ligou para o presidente: ‘‘Presidente, estou voltando para Brasília, porque acho que precisamos conversar’’, disse da Base Aérea. ‘‘Acho bom’’, respondeu secamente Fernando Henrique.
O presidente disse ontem, em Manaus, que a demissão de Carvalho faz parte da ‘‘batalha política’’. ‘‘Reafirmo que, do ponto de vista pessoal, assim como do profissional, não tenho senão palavras positivas. É um amigo, mas o presidente da República tem que, em certos momentos, atuar independentemente de seu sentimento de amizade. Ele voltou a afirmar Brasil precisa de unidade política’’.

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