Pressionado por parlamentares governistas no Senado, o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, admitiu ontem, pela primeira vez desde que eclodiu o escândalo do grampo no BNDES, renunciar ao cargo. ‘‘Na hora em que for consenso nesta Casa, eu deixo o governo’’, respondeu ao senador Pedro Simon (PMDB-RS), o primeiro a sugerir-lhe deixar o ministério para evitar novos constrangimentos ao presidente Fernando Henrique Cardoso.
‘‘Agora, não deixo (o ministério) sob acusações de ilícitos’’, ressalvou o ministro, que deu a entender que pretende aguardar a conclusão das investigações acerca da gravação de conversas suas com o presidente do BNDES, André Lara Resende, cuja divulgação colocou sob suspeita o processo de privatização da Telebrás.
A sugestão de Simon foi feita no momento mais delicado do depoimento de mais de quatro horas prestado por Mendonça de Barros no Senado.
Endossada instantes depois pelo senador Jefferson Péres (PSDB-AM), outro parlamentar da base do governo, a proposta do senador gaúcho ganhou adesões de vários políticos que apóiam o governo. No final da tarde, ainda sob o impacto da divulgação de novas conversas de Mendonça de Barros e das suas explicações ao plenário, aliados de todas as vertentes já declaravam que a renúncia seria o caminho mais honroso e menos penoso para o ministro e para o próprio governo.
Ao interpelar Mendonça de Barros, Pedro Simon argumentou que sua saída livraria o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso da suspeita de que houve manipulação na venda das teles. ‘‘Eu, se fosse vossa excelência renunciaria’’, defendeu o senador. ‘‘Praticaria um gesto de nobreza, ajudaria o presidente Fernando Henrique’’. Simon também afirmou que considerava o ministro ‘‘um homem de bem, que agiu bem intencionado para defender o Brasil’’, mas afirmou que ‘‘foi inábil’’ ao não avaliar os reflexos da divulgação das suas conversas grampeadas. ‘‘Vossa excelência, que é um gênio, não é um gênio em tudo’’, disse.
O senador do PMDB lembrou ao ministro das Comunicações que o ex-ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, também flagrado em 1994 falando o que não devia, renunciou ao cargo para não comprometer o governo a que servia. ‘‘Eu gosto muito de vossa excelência’’, assegurou Simon. ‘‘Mas as palavras, em política, são importantes’’.
Em sua intervenção, o senador Jefferson Péres ressalvou que não se importava com o fato de as conversas do ministro terem sido gravadas ilegalmente. ‘‘É um problema da policia e os que fizeram isso são deliquentes’’, comentou. Ele explicou que a sua reação baseava-se, sim, na constatação de que houve falta de ética na privatização da Tele Norte-Leste. ‘‘Houve manipulação, com boa intenção ou não’’, acusou o senador. Ele frisou que não acreditava que o ministro tivesse agido para levar vantagens pessoais, mas ressalvou que isso não solucionava a situação porque houve a quebra de princípios fundamentais da atividade pública.
‘‘Hoje um ministro honesto adota práticas heterodoxas em proveito do serviço público’’, ilustrou o senador. ‘‘Mas amanhã um ministro desonesto também pode adotar práticas heterodoxas’’. E emendou perguntando ao ministro ‘‘se ele acreditava que os fins justificam os meios?’’.
Mendonça de Barros seguiu à risca as instruções recebidas de seus aliados. Não se exaltou nem mesmo diante das provocações do senador Roberto Requião (PMDB-PR), que leu inúmeros itens da legislação sobre licitações antes de concluir que ele praticou crime de improbidade no processo de venda das teles. ‘‘Em nome do decoro parlamentar, eu não vou perguntar ao senhor o que significa o termo babaca, tão usado em suas conversas’’, provocou Requião.‘‘Babaca é aquele que não percebe aquilo que aconteceu’’, justificou. ‘‘Eu me sinto um pouco assim’’
Líder do PT e do bloco de oposição no Senado, Eduardo Suplicy (PT-SP) fez 10 perguntas a Mendonça de Barros, baseando-se em trechos das conversas grampeadas. Diante das respostas, que considerou evasivas, retrucou dizendo que os gestores públicos bombardeavam opositores pela imparcialidade e não pelo aparente favorecimento a um ou outro grupo.
FHC O porta-voz da Presidência da República, embaixador Sérgio Amaral, garantiu que o presidente Fernando Henrique Cardoso não pensa em demitir o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, nem o presidente do BNDES, André Lara Resende, em função de novas denúncias publicadas na revista ‘‘Carta Capital’’, ainda relacionadas ao grampo telefônico no BNDES. ‘‘O presidente não está cogitando de demissões. Demissões não estão em questão’’, assegurou Amaral.

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