Ministra do TSE ressalta importância da perspectiva de gênero
Segunda ministra negra do TSE, Vera Lúcia Santana Araújo ressalta que as desigualdades sociais não podem ser ignoradas pelo Judiciário
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de março de 2025
Segunda ministra negra do TSE, Vera Lúcia Santana Araújo ressalta que as desigualdades sociais não podem ser ignoradas pelo Judiciário
Douglas Kuspiosz - Reportagem Local 

A ministra substituta do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Vera Lúcia Santana Araújo, segunda mulher negra a ocupar o posto, esteve em Londrina nesta segunda-feira (17) para ministrar uma palestra OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) sobre o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero, instituído no ano passado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça), que orienta magistrados a julgarem casos de forma igualitária.
Baiana radicada em Brasília desde 1978, a ministra tem uma trajetória marcada pela atuação em defesa dos direitos humanos e da equidade. Além de integrar o TSE desde dezembro de 2023, quando foi nomeada pelo presidente Lula (PT), é vice-diretora da Escola Judiciária Eleitoral e possui ampla experiência como advogada, procuradora jurídica e gestora pública.
Em entrevista à FOLHA, Araújo explica que o protocolo do CNJ traz um instrumento dinamizador e transformador para o funcionamento do sistema de Justiça do Brasil.
“Na medida em que você traz para a cena do pensar jurídico a dimensão de que as hierarquias socioeconômicas, de gênero e de raça interferem efetivamente no funcionamento e na qualidade da prestação jurisdicional do Estado, você faz uma reflexão de ações. Quando você julga um processo com essa perspectiva, você traz para o seu olhar considerações e reflexões que antes não estavam dadas, você muda a percepção de ver o lugar ocupado pelas mulheres”, afirma.
O impacto dessas mudanças pode ser visto, por exemplo, no reposicionamento social das mulheres no mundo do trabalho.
“Isso ao você apreciar uma ação trabalhista, por exemplo, e identificar que uma mulher faltosa pode ser por decorrência de violência doméstica frequente no seu domicílio. É um instrumental novo que se coloca”, acrescenta.
Araújo também lembra, na semana passada, o TSE aprovou, por unanimidade, uma resolução para garantir a presença de mulheres nas listas tríplices para os TREs (Tribunais Regionais Eleitorais), com perspectiva interseccional de raça e etnia.
“Indiscutivelmente é uma conquista muito grande para a sociedade brasileira. Eu entendo que se a gente se move na perspectiva de uma sociedade mais igualitária, naturalmente isso beneficia a todos”, frisa.
O protocolo do CNJ, que começou a ser desenvolvido por um GT (Grupo de Trabalho) em 2021 e foi instituído em 2024, tem sua aplicação monitorada por um banco de sentenças. Já são quase sete mil decisões baseadas nele no âmbito da Justiça Estadual, onde tramitam ações cíveis e da família.
“Dramaticamente, a família é um locus de opressão e violência muito forte contra as mulheres, vide o número de feminicídios, uma coisa quase epidêmica que enfrentamos”, reforça a ministra, citando ainda os direitos previdenciário e trabalhista como outros ramos impactados pelo protocolo de gênero.
POLÍTICAS DE INCLUSÃO
Em meio a um sistema jurídico majoritariamente composto por homens brancos, Araújo explica que o CNJ vem estabelecimento políticas no Judiciário para a inclusão, permanência e ascensão de mulheres, negras e negros na magistratura brasileira. Um exemplo é a própria Enfam (Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados), uma vez que a formação para aplicação do protocolo ocorre de forma continuada.
“Você não vai mudar a lei e não quebra a imparcialidade necessária para o julgador. O que você faz é trazer para o julgador a capacidade, os informes e aportes para olhares que antes ele ignorava ou desconhecia”, pontua a ministra.
“O protocolo faz esse chamamento para uma percepção de que há camadas e camadas de desigualdade que resultam em fatos jurídicos. Existem fatos jurídicos que muitas vezes somente ocorrem em virtude de desequilíbrios e desigualdades da sociedade”, citando a necessidade de se ter um olhar mais amplo a partir dessas interseccionalidades.
SÚMULA 73
Uma das principais decisões recentes da Justiça Eleitoral foi a publicação da Súmula 73 do TSE, que estabelece duras sanções para a fraude à cota de gênero. A decisão visou orientar, ainda antes do pleito de 2024, partidos, federações e candidatos sobre o cumprimento do percentual mínimo de 30% de candidaturas femininas, de modo que votações zeradas ou inexpressivas, prestações de contas suspeitas e ausência de atos de campanha são elementos que podem indicar a irregularidade na cota.
“É fundamental porque a Súmula 73 alcança a estrutura vital do partido, porque pode, inclusive, retirar toda a bancada”, completa.
OLHO NO FUTURO
Apesar de reconhecer que institucionalmente o país vem avançando - na medida em que há um aparato normativo garantidor -, a ministra é enfática ao dizer que “a sociedade brasileira não abre mão de ser machista, de ser radicalmente racista”.
“Isso exige muito mais, é uma educação que não se restringe à educação formal do acesso a um diploma, nesse imaginário bem lugar-comum. Você resolve com educação libertária, garantidora e assecuratória, na plenitude do pensar e na liberdade de expressão, no despertar do senso crítico sobre a realidade da afeição à democracia, como único ambiente possível para o exercício das liberdades”, finaliza.


