São Paulo - Não bastassem as denúncias de corrupção que há duas semanas assombram o Ministério dos Transportes, uma análise de seu orçamento revela incapacidade na gestão dos recursos reservados para investimentos. Levantamento da ONG Contas Abertas no Orçamento da União mostra que o Ministério dos Transportes deixou de usar, desde 2002, cerca de R$ 63 bilhões destinados a investimentos no setor.
O cálculo - que foi ajustado pela inflação e exclui os gastos de custeio - revela que o ministério conseguiu gastar apenas 57% do valor previsto. Na primeira metade deste ano, por exemplo, o ministério investiu pouco mais de um terço (35%) do orçamento. Foram destinados para investimentos em transportes em 2011 R$ 17,1 bilhões. Só R$ 6,1 bilhões haviam sido pagos até o início do mês.
''Se há dinheiro e há necessidade de investimentos, e se esse investimento não está sendo feito, é porque falta competência. É muita incompetência na gestão do dinheiro público'', opina Flávio Benatti, presidente da Associação Nacional de Transportes de Cargas e um dos dirigentes da Confederação Nacional dos Transportes (CNT).
Ano de eleição da presidente Dilma Rousseff, 2010 foi o período em que os transportes mais receberam recursos. No ano passado, 78% (ou R$ 13,7 bilhões) dos recursos previstos foram de fato investidos.
Os principais argumentos dados pelo governo nos últimos anos para justificar os atrasos nas obras de infraestrutura são a fiscalização dos órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União, e o suposto rigor da legislação ambiental. Para Benatti, no entanto, as recentes denúncias envolvendo o Ministério dos Transportes evidenciam que os mecanismos de controle não podem ser flexibilizados.
Manoel Reis, coordenador do curso Master em Logística da Fundação Getúlio Vargas, admite que a fiscalização pode atrasar as obras, mas ressalta que este não é o principal fator. Para ele, ''claramente, há um problema de gestão''.
Se o Ministério dos Transportes não consegue gastar todo o valor reservado para investimentos em seu orçamento, não é por falta de obras pendentes. Os R$ 63 bilhões excedentes nos últimos anos são seis vezes o valor estimado pela CNT como necessário para resolver os problemas nos aeroportos do País (R$ 9,7 bilhões) - apontados como principal gargalo para a realização da Copa de 2014.
O dinheiro economizado pelo Ministério dos Transportes equivale, ainda, a um terço dos investimentos necessários nas estradas (estimado pela CNT em R$ 190,1 bilhões). Em estudo divulgado em janeiro, a entidade afirma que, no total, o Brasil precisa investir R$ 404,9 bilhões em infraestrutura de transportes. Manoel Reis acrescenta ainda que seriam precisos US$ 30 bilhões (cerca de R$ 47 bilhões) para a construção de 10 mil km de estradas de ferro no Brasil.
Procurada pela reportagem na tarde de sexta-feira para comentar os números, a assessoria do Ministério dos Transportes disse que não conseguiria se manifestar a tempo do fechamento da edição.

mockup