Curitiba - Com a aposentadoria suspensa pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e alvo de investigações no mesmo órgão, o presidente do Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná, Clayton Camargo, negou que tenha tentado fugir de punições administrativas. "Jamais. A minha biografia não combina com nenhum gesto de covardia", afirmou Camargo. "Ao contrário, eu faço questão que tudo isso vá até o final." O desembargador é investigado há cerca de dois anos pelo CNJ, sob suspeita de tráfico de influência e venda de sentenças. As sindicâncias correm em sigilo.
Na segunda-feira, ele pediu aposentadoria - três anos antes do limite para a parada compulsória, num gesto que surpreendeu os colegas. Camargo, 67, assumiu a presidência do TJ há somente sete meses. Seu mandato iria até o fim de 2014. Na avaliação do Ministério Público Federal, que pediu a suspensão da aposentadoria, Camargo tentava fugir de uma eventual punição do CNJ. No final de agosto, o desembargador havia sido notificado de que o órgão vai definir em outubro se abre ou não um processo administrativo disciplinar contra ele.
À Folha de S.Paulo, o desembargador disse que nada o impedia de se aposentar. "O pedido de aposentadoria não tem nada a ver, não vai obstar (a investigação). Tudo isso que o CNJ está reportando são inquéritos. Inquéritos! Foram instaurados em decorrência de, não vou nem dizer denúncias, mas acusações feitas por particulares. Que têm que ser apuradas. Eu disse e reafirmo: eu vou ser absolvido."
Ele afirmou ainda que vai cumprir a decisão do CNJ, mas a criticou por ser "unilateral" e informou que vai recorrer, possivelmente ao Supremo Tribunal Federal (STF). "Recorrer dentro do CNJ é perda de tempo, porque lá eles não examinam, eles prejulgam. Acho que a corte máxima, isenta, é o STF."
Ele ressalta que quer se afastar "por questões de saúde": há duas semanas, teve uma crise de angina em plena sessão de julgamento. Foi submetido a uma angioplastia e colocou três stents no coração. "Estou me recuperando, sou um homem saudável. Mas o meu médico não me autorizou a retornar ao trabalho. Mandou reduzir minha carga horária para seis horas diárias, no máximo. Eu sempre fui de chegar aqui às 8h e sair às 22h. Eu senti que era preferível (me aposentar). Eu não teria condições de fazer o expediente que eu faço normalmente. O nosso papa (Bento 16) abdicou do papado porque achou que não estava mais em condições. E eu acho que não estou mais em condições físicas de permanecer na presidência do TJ."

Renúncia
Apesar da reviravolta em torno de sua aposentadoria, Clayton Camargo manteve a decisão de renunciar à presidência do TJ. Em nota divulgada ontem no início da noite pela assessoria de imprensa do TJ, Clayton Camargo informa à presidente do TJ em exercício, desembargadora Dulce Maria Cecconi, que sua renúncia está formalizada e que fica mantida para o próximo dia 3 a eleição para definição do novo presidente do TJ. A assessoria de imprensa não esclareceu se ele permanece normalmente na função de desembargador, apenas sem o cargo de comando. (com Reportagem Local)

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