Milosevic questiona o tribunal
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2002
Beatriz Lecumberri France Presse 
Haia Slobodan Milosevic quebrou o silêncio de dois dias, ontem, para denunciar, com uma agressividade e arrogância já conhecidas, a falta de legimitidade do Tribunal Penal Internacional (TPI), a parcialidade e preconceitos da promotora Carla del Ponte e a campanha contra sua pessoa nos meios de comunicação.
Tão logo, quando foi concluída a exposição da promotoria sobre os crimes que lhe são imputados (genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade nas guerras que desmembraram a Iugoslávia), tomou da palavra, reiterando, em servo-croata que o TPI é completamente ilegal.
Este tribunal não tem competência para julgar, assegurou em tom ameaçador, recordando que foi criado pelo Conselho de Segurança da ONU não pela Assembléia Geral das Nações Unidas ou por uma conferência internacional.
Enérgico e arrogante, Milosevic recordou ao juiz britânico Richard May, que preside as sessões, que ninguém nunca lhe respondeu por que tem que ser julgado desta forma.
Esses comentários não procedem, respondeu secamente o juiz Richard May, que desde que Milosevic chegou à prisão de Haia, há sete meses e meio, teve que lidar em diversas audiências com o irreverente ex-presidente.
Milosevic, o primeiro ex-chefe de Estado julgado por um tribunal internacional, destacou que nos dois primeiros dias do julgamento, a promotora Del Ponte, foi parcial e já proclamou a sentença contra ele.
A acusação orquestrou uma campanha através da imprensa. É um processo paralelo graças aos meios de comunicação, os quais, apoiando este animal chamado tribunal, querem condenar-me. Já sabia que não poderia ter um julgamento justo e equitativo, afirmou.
O juiz May, que deixou o acusado falar dez minutos, cortou o som do microfone de Milosevic em meio a seu arrebatamento. O magistrado considerou irrelevantes e repetidos os comentários do ex-presidente, que iniciará hoje seu discurso de defesa.
A promotora Carla del Ponte e seus dois assessores levaram dois dias para expor claramente as acusações apresentadas contra Milosevic. O ex-líder sérvio deverá responder por crimes contra a humanidade e crimes de guerra nos conflitos da Croácia (1991-95), Bósnia (1992-95) e Kosovo (1998-99), além de genocídio na Bósnia.
A promotoria assegura que pode provar o envolvimento de Milosevic em todos eles, algo que os especialistas em Direito Internacional consideram muito difícil, sobretudo no caso da Bósnia.
Segundo Geoffrey Nice, promotor adjunto do TPI, pode ser demonstrado que a atroz limpeza étnica cometida em numerosas cidades da Bósnia-Herzegovina entre 1992 e 1995 não teria sido possível sem a cumplicidade criminal das forças sérvias de Milosevic.


