Militância de aluguel domina convenção
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de março de 1998
Agência Folha 
A militância de aluguel - toda pró-FHC - dominou a convenção do PMDB. A R$ 40,00 a cabeça, os militantes profissionais trabalharam bem: conseguiram ofuscar até os exaltados seguidores do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), quercistas, no plenário. Quando o ex-presidente Itamar Franco discursou e se ouviu a todo volume Rá, Rá, Rá, Fora Itamar, eram eles fazendo jus ao que receberam. Quando vaiaram o inflamado discurso do senador Roberto Requião (PR) convocando o PMDB que não se compra e não se vende, também era uma ação profissional, orientada por animadores de auditório.
No plenário, à esquerda da Mesa, se podiam distinguir bem claramente dois grupos pró-FHC uniformizados. Um grupo de 90 mocinhas de minissaia, contratado pelos governistas à empresa Soic Eventos, de Brasília, era orientado a repetir palavras de ordem por dez monitoras com fones de ouvido à maneira das estrelas de rock. Quem, porém, perguntava às meninas se votava no PMDB, ouvia um sonoro
não. Mesmo as coordenadoras de grupo, como Vânia Ferreira, 26, não demonstravam nenhuma simpatia pelo partido.
O outro grupo, formado por 120 pessoas de camisa amarela, na maioria rapazes musculosos, dizia ter sido contratado também a R$ 40,00 pelo deputado distrital Luiz Estevão (DF), aquele mesmo primeiro-amigo do ex-presidente Fernando Collor. Estes tratavam de arremessar bolinhas de papel e partir para a força bruta sempre que consideravam necessário - ou seja, quase sempre. Enquanto nos discursos os governistas lembravam a ligação entre Itamar e Collor, uma kombi da Fundação Comunidade, de Luiz Estevão, distribuía comida para o povo do lado de fora.
Gente que foi trazida das cidades-satélites de Brasília - mais de 450 pessoas, segundo os próprios coordenadores -, em ônibus fretados, para dar volume ao evento. Ganharam camiseta e boné com os dizeres Sou PMDB, vou de FHC, lanche composto de misto frio, refrigerante e bolachinhas Mabel - presente do deputado (e dono da fábrica) Sandro Mabel (GO) -, e o tradicional cai duro, como dizem, de almoço (arroz-feijão-carne-farofa). E não se convenceram.
O mestre-de-obras Antonio de Melo Franco, 48, casado, três filhos, foi trazido de Samambaia e estava satisfeito, como todos do lado de fora, porque estava ajudando seu ídolo, o ex-governador do DF Joaquim Roriz. Para ser sincero, eu não gosto de Fernando Henrique, não. Meu voto era para o Sarney. Você não vê o desemprego e a miséria no nosso país? Como é que eu vou gostar de um homem desse? Agora, ele e o Roriz são íntimos. Se ele se reeleger vai ajudar o Roriz a voltar, também, explicou.


