Os prefeitos paranaenses estão entre os que mais possuem terras no Brasil. Dos 397 registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - não há dados de dois -, 197 têm um vínculo estreito com o campo, o que corresponde a 49,62%. Se considerarmos também os vice-prefeitos, a porcentagem sobe para 74,44%. Em número de hectares de seus governantes, o Estado só perde para Mato Grosso, Bahia, Minas Gerais e Goiás. As informações constam no livro ''Partido da Terra - como os políticos conquistam o território brasileiro'', do jornalista Alceu Luís Castilho, lançado na semana passada em São Paulo.
O autor passou três anos pesquisando quase 13 mil declarações de bens de políticos eleitos, entregues por eles mesmos ao TSE em 2008 e 2009. O resultado é um mapeamento dos donos de terras no Brasil, recheado de histórias de quem são, quanto têm e como agem. ''É uma base pública, com omissões sim, mas que por outro lado tem uma massa enorme de informações. E o mais curioso é que muitos políticos gostam de ostentar esses bens. Detalham a fazenda, informam o nome, o número de hectares e o local onde fica'', afirma Castilho.
Partidos
PMDB e PSDB são os partidos brasileiros que abrigam mais políticos com
terras, segundo o livro. Os tucanos lideram o ranking entre os prefeitos, com mais de 21% do total de 1,16 milhão de hectares declarados em 2008, seguidos de perto pelos peemedebistas, com 20% das terras.
Já entre os parlamentares eleitos em 2010 são os do PMDB que detêm mais de 21% dos hectares: 95 mil em relação ao total de 451 mil.
Maior produtor de semente de soja do país, o deputado federal Odílio Balbinotti (PMDB-PR) assumiu o cargo no lugar de Moacir Micheletto, morto em um acidente de carro no início deste ano, e está agora em sua quinta legislatura. Em 2006, ele declarou ao TSE mais de R$ 68 milhões em terras, num total de 12,5 mil hectares.
Procurado pela reportagem, porém, o parlamentar informou, por meio de sua assessoria, que fez uma doação, há um ano e meio, de quase todos os seus bens, incluindo fazendas, para os dois filhos, os empresários Adriana Balbinotti Soares e Odílio Balbinotti Filho, em uma espécie de pagamento de herança em vida.
De fato, em 2010, de acordo com o TSE, o patrimônio de Odílio Balbinotti encolheu de R$ 123 milhões, no total, para R$ 16 milhões, sendo 2,65 milhões em terras e 6,48 milhões em participações no capital da empresa Sementes Adriana, de sua filha.
Castilho conta que quase todas as legendas têm senadores, vereadores, prefeitos, vice-prefeitos e deputados com (muita) terra. ''A posição do PR também é surpreendente, muito acima do DEM, inclusive, no caso dos prefeitos. E outra surpresa, talvez nem tão surpresa assim, é a presença de muitos latifundiários em partidos considerados de esquerda, como PT, PPS, PSB e PDT. Isso me leva a concluir que, mais do que uma bancada ruralista, a gente tem um sistema político ruralista'', disse.
O jornalista relata também um grupo curioso entre os políticos eleitos: 92 prefeitos, 207 vice-prefeitos e oito deputados declararam-se, ao informar a profissão, agricultores, pecuaristas ou produtores agropecuários. Porém, ao TSE, não informaram possuir um único metro quadrado de terra.
Grandes proprietários
O autor destaca ainda um grupo de 31 políticos com em média 20 mil hectares cada. Isso representa quase um terço do total de ''terras de políticos''
identificadas no levantamento. ''Em um país que ignorou e ignora uma reforma agrária de fato, essa terra toda pertence a figuras muito especiais: os executores das leis e normas que regem o próprio território'', comenta Castilho.
O prefeito de Tibagi (PMDB-PR), Sinval Silva, o prefeito de Candói (PSDB-PR), Elias Farah Neto (PSDB-PR), o vice-prefeito de Carlópolis, Todashi Uto (PR-PR), e o prefeito de Telêmaco Borba, Eros Araújo (PMDB-PR), são os paranaenses nessa lista.
O livro também mostra uma ocupação efetiva do Norte e do Centro-Oeste por políticos de todo o país. Na Região Sul, 59% das terras dos deputados federais não ficam no próprio domicílio eleitoral do político. O mesmo ocorre com 37% dos hectares dos parlamentares do Sudeste. Em contrapartida, somente 7,7% das terras dos políticos do Norte estão localizadas em outras unidades da federação.
O deputado Nelson Padovani (PSC-PR) é um dos que, de acordo com o livro, têm uma declaração imprecisa em relação ao tamanho das fazendas. Segundo o autor, tudo indica que ele possui milhares de hectares no Maranhão e no Mato Grosso, até pelo valor dos imóveis (R$ 1,3 milhão somente em Loreto-MA), no entanto, os números registrados no TSE são ''indecifráveis'', afirma. Padovani também foi procurado pela reportagem, mas não respondeu às solicitações até o fechamento desta edição.
Ruralistas
''Partido da Terra'' reserva um capítulo especial para a chamada bancada ruralista do Congresso, que atua em defesa dos interesses dos grandes proprietários. E mostra um dado curioso: em julho de 2011, entre os 40 representantes da Comissão de Agricultura da Câmara, mais da metade tinha terra. Juntos, eles possuem um patrimônio de R$ 111 milhões, sendo que, desse total, R$ 51 milhões referem-se a bens rurais.
São políticos como Abelardo Lupion (DEM-PR), neto de Moisés Lupion e dono da Pecuária Seletiva Beka Ltda - empresa que ele declarou por R$ 3,47 milhões.
Governador do Paraná de 1947 a 1951 e de 1956 a 1961, Moisés Lupion tinha, segundo Castilho, o hábito de distribuir terras ''não para quem quisesse, mas para fazendeiros amigos - como os irmãos Ricardo, Urbano e Geremi Lunardeli''.
''Agraciados'' com 17 mil alqueires em Porecatu, no Vale do Paranapanema, em 1947, os Lunardelli teriam retirado, com o apoio da PM, do governo estadual e de uma milícia de pistoleiros, 1,5 mil famílias do local. ''O conflito ficou conhecido como a Revolta do Quebra Milho - ou a Guerra de Porecatu'', conta o livro.
Anos depois, em 1987, o neto de Moisés, Abelardo, fundou a unidade paranaense da UDR (União Democrática Ruralista), cujo objetivo, destacado na página da organização na Internet, é ''defender incondicionalmente os direitos e interesses do produtor rural brasileiro''.
Para Alceu Castilho, esse é um dos casos mais emblemáticos do livro. ''A história da formação do território brasileiro é também uma história de políticos. E, ao contrário do que muita gente pensa, não é limpa. É sim uma história repleta de confisco de terras públicas.''
Serviço:
''Partido da Terra - como os políticos conquistam o território brasileiro''
Autor: Alceu Luís Castilho
Editora: Contexto
Páginas: 240
Preço: R$ 29,90, na Livraria Cultura

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