Metade dos deputados é eleita em ''currais''
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de junho de 2003
Wilson Tosta<br> Agência Estado 
Rio de Janeiro - Um estudo do cientista político Nelson Rojas de Carvalho constatou que cerca de metade dos deputados federais do Brasil obtém seus mandatos em cidades nas quais a disputa real por votos inexiste ou é reduzida - resumindo, em ''currais eleitorais''. O trabalho, feito sobre parlamentares eleitos em 1994 e 1998, mostra que a tendência para que isso ocorra é maior em municípios mais pobres, com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A origem dos votos, diz a pesquisa, influencia a atuação desses parlamentares, que priorizam a luta por verbas em detrimento das questões nacionais e ideológicas.
''O que acontece no País não é um processo de distritalização, mas de oligarquização do voto'', diz Carvalho, que defendeu, no Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj), a tese de doutorado ''E no início eram as bases: Geografia Política do Voto e Comportamento Legislativo no Brasil'', a ser lançada em livro até o fim do mês. Em sua pesquisa, o cientista político encontrou deputados originários de redutos eleitorais fechados no PMDB, PFL, PSDB e PPB, mas também detectou casos no PT. Um é o ministro da Fazenda, Antônio Palocci.
Para chegar às suas conclusões, Carvalho, a partir dos municípios, trabalhou com os conceitos de concentração de votos (porcentagem da votação do candidato, por cidade) e de dominância geográfica (se o político ''domina'' ou seja, se tem maioria dos votos do município). A partir daí, chegou a quatro modelos de deputado federal eleito: o concentrado dominante (que concentra sua votação em um ou poucos municípios); o fragmentado dominante (que colhe votos em muitas cidades, nas quais é líder); o concentrado não-dominante (que concentra sua votação em poucos lugares, onde é minoritário); e o fragmentado não-dominante (com votação espalhada).
O primeiro tipo, de cidades do interior, classificado por Carvalho como ''distritável'', é o de Palocci, que em 1998 conseguiu em Ribeirão Preto 66% de seus votos e 44% dos votos válidos para deputado federal.
Delfim Netto (PPB-SP) é um concentrado não-dominante, característico das capitais: teve pouco mais de 55% de sua votação na cidade de São Paulo, onde não foi o mais votado. Com 124 mil votos em vários municípios, dominando alguns, Vadão Gomes (PPB-SP) é um fragmentado dominante, político típico do Nordeste. Salvador Zimbaldi (PSDB-SP) teve 182 mil votos, sem dominar nenhuma cidade: um fragmentado não-dominante, tipo característico dos representantes de grupos religiosos ou movimentos sociais, como o MST.
Segundo a pesquisa de Carvalho, são os concentrados dominantes (17% do total) e os fragmentados dominantes (33%) que, na prática, não têm adversários. Concentrados não-dominantes são 30% do total, e os fragmentados não-dominantes, 20%.
Carvalho constatou ainda que os municípios menores e mais pobres, onde atuam os deputados dominantes (concentrados e fragmentados) também são aqueles que desperdiçam menos votos, ou seja, que mais votam em candidatos eleitos, o que indica baixa competição.


