O deputado federal José Janene (PP), manteve o silêncio ontem, mesmo após a sua absolvição no processo de cassação do mandato votado pelo plenário da Câmara Federal. Na noite de quarta-feira, quando o relatório do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, que recomendava a cassação, foi votado, dos 414 deputados - que segundo o painel eletrônico estavam presentes no plenário -, somente 366 votaram. Destes, 210 foram favoráveis ao relatório. Outros 128 votaram contra o parecer do deputado Jairo Carneiro (PFL-BA), 23 se abstiveram, e cinco votaram em branco. Para que Janene perdesse o mandato, eram necessários 257 votos.
Segundo a assessoria de imprensa do deputado, Janene ''não tinha motivos (para falar com a imprensa) nem antes (da votação), nem agora''.
O ex-líder do PP, que está afastado dos trabalhos desde setembro de 2005 devido problemas cardíacos, foi acusado de ter recebido R$ 4,1 milhões do valerioduto. Janene é o 12º deputado supostamente envolvido com o esquema do mensalão absolvido pelos colegas de plenário. Dos 19 parlamentares citados no relatório conjunto das CPIs do Mensalão e dos Correios, somente tiveram os mandatos cassados Roberto Jefferson (PTB-RJ), José Dirceu (PT-SP) e Pedro Corrêa (PP-PE). Outros quatro, entre eles o também paranaense José Borba (PMDB), renunciaram aos mandatos. Dois deles se reelegeram nas eleições de outubro, o paulista Valdemar Costa Neto, então presidente nacional do PL (hoje, PR) e o paraense Paulo Rocha, ex-líder do PT na Câmara.
Para a professora de Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Francisca Verginio Soares, a absolvição de Janene na Câmara, ''é o símbolo da impunidade, do absurdo, da indignação''. ''Vai contra a própria imagem do Congreso Nacional, composto por 513 deputados sendo que nem 300 pessoas votaram favoráveis à cassação. Isso macula ainda mais a imagem do Congresso, mostra que os parlamentares não estão preocupados em punir os seus iguais'', analisou. ''Tenho um estudo com 100 adolescentes em conflito com a lei e você confronta o quadro das situações e chega à conclusão que quem vai para a cadeia é o pobre. Na verdade isso reflete essa situação de indiferença na sociedade e nas necessidades das pessoas. Quem tem dinheiro não é punido. Diante desta situação de violência, de crise na sociedade isso vem a refletir no imaginário social, na idéia da impunidade, que crime compensa'', complementou.
Na avaliação de Francisca, a decisão do plenário coloca em ''xeque'' a função do Conselho de Ética. ''É um reflexo negativo porque faz a gente questionar o próprio Conselho de Ética, qual a noção de ética que esses parlamentares têm.''
Na análise do cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), professor Ricardo Oliveira, o desfecho do caso ''mostra a questão da impunidade e a articulação de Janene''. ''Mostra que o poder Legislativo é um espaço de grande autonomia para manobras consideradas negativas e eles têm grande espaço para realizá-las'', afirmou. ''Isso não colabora em melhorar a idéia positiva do Legislativo. A isso, somam-se as notícias do aumento salarial dos deputados. Ao mesmo tempo, muitos que foram julgados e punidos mesmo assim conseguem voltar, como é o caso do ex-prefeito Antonio Belinati (que teve o mandato cassado em 2000). A gente observa que a lógica política funciona de uma determinada maneira e não apenas pelos valores da ética e bom costume'', concluiu.

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