Brasília - O relator do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, teve novo embate com o revisor, ministro Ricardo Lewandowski, chegando a acusá-lo de ''contornar'' os autos em seus votos. Lewandowski reclamou da postura do colega e disse que ele desejava acabar com sua função de revisor. O ministro Marco Aurélio Mello também fez críticas a Barbosa.
O novo bate-boca começou com a sinalização do revisor de que vai absolver Emerson Palmieri, ex-secretário do PTB. Lewandowski citou haver vários depoimentos dizendo que não cabia a este réu a manipulação e captação de recursos. Barbosa o interrompeu, destacando que Marcos Valério e Simone Vasconcelos disseram ter entregue recursos a Palmieri e que o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares confirmou a autenticidade de uma lista de repasses em que aparece o nome do ex-secretário do PTB.
Lewandowski disse ser natural ter divergências com o relator, que replicou: ''Divergências filosóficas são normais, factuais não'', disse Barbosa. Lewandowski se irritou: ''Então Vossa Excelência deveria propor que se abolisse a figura do revisor se quer que eu coincida com todos os pontos de vista''. Barbosa afirmou estar apenas ''lembrando'' o colega sobre aqueles fatos, ao que o revisor rebateu dizendo que conhecia os autos. Mas Barbosa foi além e afirmou não ser possível fazer ''vistas grossas'' aos fatos. Marco Aurélio o repreendeu: ''Ninguém faz vista grossa aqui. Tem de aceitar as manifestações dos colegas''. O relator alegou fazer apenas ''observação pontual''.
O presidente da corte, Carlos Ayres Britto, interrompeu para dizer que Lewandowski não estava negando o fato apontado. Barbosa, então, acusou: ''Ele está contornando''. Marco Aurélio novamente protestou: ''Cuidado com as palavras. Vamos respeitar os colegas''. Barbosa disse não gostar de cortesia e afirmou que não fazia qualquer ofensa. ''Se o revisor faz colocações que vão inteiramente de encontro ao que o relator disse, não tem o relator o direito de chamar a atenção? Foi o que fiz'', disse Barbosa.
Lewandowski afirmou que é normal ter visões diferentes e citou que jornalistas escrevem textos diferentes sobre o mesmo tema, ao que o relator novamente criticou o colega: ''Não ligo para o que diz jornalista'', disse Barbosa, novamente cobrando o revisor da necessidade de distribuir o voto. Lewandowski se irritou: ''Não lhe cabe me dizer o que fazer. Vossa excelência já proferiu seu voto''. Barbosa retrucou: ''Então faça corretamente''. Marco Aurélio novamente censurou o relator: ''Policie sua linguagem''.
O revisor disse que tem procurado ''divergir com a maior cortesia'' e destacou haver mais convergências do que diferenças com Barbosa. O relator novamente retrucou: ''Só fiz uma observação''. Lewandowski retrucou. ''Vossa excelência diz que estou fazendo leitura equivocada, induzindo os colegas a erro? Diga explicitamente''. Barbosa acusou o colega de alongar o seu voto para ficar ''do mesmo tamanho'' do já proferido por ele. Lewandowski se disse ''estupefato'' com a afirmação. Britto interferiu novamente e pediu ao revisor que continue com seu voto, encerrando mais este embate.
Emerson Palmieri
O ministro Ricardo Lewandowski votou ontem pela absolvição do ex-secretário-geral do PTB Emerson Palmieri dos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Lewandowski considerou que não há provas de que Palmieri tenha ajudado o presidente do partido, Roberto Jefferson, e o ex-deputado federal pelo PTB Romeu Queiroz (MG) a praticar o crime de corrupção passiva.
Ao citar uma série de depoimentos, o revisor disse que, embora tenha participado de algumas operações com o esquema de Valério, Palmieri não era tesoureiro do PTB, nem sequer cuidava das finanças do partido. Lewandowski afirmou que teve ''mais dúvidas do que certezas'' ao analisar a participação de Palmieri no esquema. Palmieri fez uma série de saques para a cúpula do partido.
O ministro afirmou que a situação é complexa porque o ex-secretário do PTB era uma ''pessoa onipresente, era quase que uma alma do partido''. Mas, na avaliação de Lewandowski, ele não colocou a ''mão no dinheiro, era coadjuvante''. ''Não obstante o vasto conjunto probatório, restam dúvidas sobre participação dele nos delitos'', observou.

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