Menem volta a criticar candidatura Lula
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de julho de 1998
Augusto Gazir e Denise Chrispim Marin Agência Folha 
O presidente da Argentina, Carlos Menem, voltou a fazer campanha para a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso e criticar Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT. Se vocês me perguntam o que é mais favorável para o Mercosul, nas eleições de outubro, eu vou repetir: o triunfo do presidente Cardoso. Assim, simples e sem rodeios, disse Menem ontem, em entrevista coletiva, durante o encerramento da reunião da 16ª Cúpula do Mercosul em Ushuaia (Extremo-Sul da Argentina).
Obrigado, respondeu FHC, sentado ao lado de Menem na mesa de presidentes. Todo o apoio é bem-vindo, completou FHC depois do fim da reunião. Em tom de campanha, o presidente reafirmou diante dos presidentes da Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia e Paraguai que não fará mudanças econômicas, caso ganhe as eleições de outubro. Seria um grande erro se a oposição chegar ao poder, eu penso que não, e mudar a política econômica. Se a direção continuar nas minhas mãos, não vai haver mudanças, disse FHC.
O presidente Menem já havia defendido a reeleição de FHC em junho, durante seminário sobre a moeda única em Buenos Aires. Menem afirmou que a eleição de Lula e a política econômica do petista inviabilizaria o Mercosul. Isso foi interpretado como uma interferência minha nos assuntos brasileiros. Não é assim. Como presidente pró-tempore do bloco, eu tenho de defender nossos anos de trabalho, afirmou Menem. Ontem, ele passou a presidência do Mercosul para FHC e voltou a atirar farpas em Lula.
Lembro que em 95, durante minha campanha, o candidato da oposição no Brasil fez referência à minha candidatura em termos inadequados. Isso não foi uma réplica, mas uma defesa irrestrita do Mercosul, disse.
O presidente da África do Sul, Nelson Mandela, que participou do encontro como convidado especial, preferiu não interferir na política brasileira. Sobre o encontro que teve com Lula, durante sua visita ao Brasil nesta semana, ele afirmou em entrevista coletiva que se reúne com qualquer pessoa que deseje falar com ele.
Mandela chamou de concha vazia os países que têm democracia, mas não têm desenvolvimento social, onde não há comida para quem tem fome. O presidente elogiou as conquistas sociais de um país que ele visitou em março. Lá, não há liberdades democráticas, mas as pessoas têm educação, serviços sanitários e não pagam impostos, disse, sem especificar o país.
Indagado sobre a afirmação de Mandela, FHC disse que a concha brasileira está enchendo. Quando tem ditadura é que não dá para encher, completou.
Democracia Os presidentes do Mercosul também assinaram ontem em Ushuaia, no protocolo do encontro, um documento tornando obrigatória a chamada cláusula democrática, que garante a continuidade institucional na sub-região, reiterando que a plena vigência das instituições democráticas é condição essencial para o desenvolvimento dos processos de integração.
Toda ruptura da ordem democrática dará lugar à aplicação de uma série de medidas que abarcará da suspensão do direito do Estado afetado a participar dos vários órgãos dos respectivos processos de integração até a suspensão dos direitos e obrigações emergentes destes processos, continuou o comunicado.
O presidente FHC embarcou ontem de volta ao Brasil.


