Um porta-voz do presidente Carlos Menem admitiu que as críticas realizadas ao candidato do PT à presidência do Brasil, Luíz Inácio Lula da Silva, de que sua chegada ao poder poderia destruir o Mercosul, foram feitas baseadas nas declarações publicadas pelo jornal La Nacion. Segundo o porta-voz de Menem, o presidente argentino está comprometido com a manutenção das regras do bloco comercial.
A polêmica sobre Lula começou na sexta-feira pela manhã, quando 150 mil leitores do influente jornal La Nacion leram a manchete na primeira página ‘‘Lula ameaça a continuidade do Mercosul’’, onde se afirmava que o candidato do PT possui um programa de governo que inclui a maxidesvalorização do real e que isso poderia levar ao fim do Mercosul ou arrastar os outros países sócios aos caos financeiro.
La Nacion sustenta que Lula disse que a maxidesvalorização é a única forma de aumentar as exportações brasileiras. Segundo o jornal argentino, ao diminuir seu valor em reais, os produtos brasileiros seriam mais atraentes para o mercado externo e os produtos da Argentina, que destina ao Brasil 30% do total de suas exportações, se tornariam caros e consequentemente perderiam este mercado.
O embaixador argentino no Brasil, Jorge Hugo Herrera Vega, que participou este sábado em Buenos Aires do encerramento do seminário sobre a criação de uma moeda única para o Mercosul, disse que a embaixada em Brasília havia entrado em contato com assessores do PT em São Paulo para confirmar a veracidade das declarações de Lula. O PT respondeu que o que havia sido publicado no La Nacion não passava de mentira. Herrera Vega mandou a explicação para Menen através dos canais competentes da chancelaria em Buenos Aires.
No entanto, a burocracia diplomática argentina foi menos rápida do que a língua do presidente argentino que na mesma tarde, no encerramento do primeiro dia do seminário sobre moeda única, disse, sem referir-se a Lula explicitamente, que havia tido ‘‘a oportunidade de ler declarações de um dos candidatos a presidente do Lula que é a terceira vez que se candidata. Evidentemente, não concordamos nos mais mínimos detalhes. Com políticas assim, o Mercosul desapareceria’’. Menem fez uma enérgica defesa da manutenção da conversibilidade econômica e da paridade dólar-peso: ‘‘Foi essa política que nos permitiu sair do caos da hiperinflação’’, disse.
O secretário de planejamento estratégico da Argentina, Jorge Castro, sustentou que Menem havia se preocupado com as hipotéticas declarações de Lula, já que uma maxidesvalorização atingiria a Argentina pela ‘‘grande integração existente entre os dois países’’. Segundo Castro, Menen não tinha a intenção de intrometer-se na política interna brasileira, e que caso as declarações de Lula fossem verdadeiras seriam muito preocupantes.
Mas apesar da polêmica, Lula não preocupa todo mundo na Argentina. O vice-ministro da economia da Argentina, Carlos Rodriguez, declarou que Lula ‘‘pode assustar os investidores estrangeiros’’, mas que não o preocupa: ‘‘Não acredito que Lula seja um bicho-papão’’, afirmou.

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