Meirelles usou conta de doleiros, diz revista
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quinta-feira, 05 de agosto de 2004
Agência Folha 
Brasília - A divulgação de uma denúncia segundo a qual o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, usou uma conta de doleiros para fazer uma operação financeira em 2002 colocou o governo em estado de alerta, gerando rumores sobre sua eventual substituição. Segundo o site da revista ''Veja'', Meirelles usou uma conta de doleiros no banco norte-americano CBC para uma fazer uma operação de US$ 50,67 mil no dia 18 de outubro de 2002. Meirelles divulgou nota oficial na qual dá sua versão para a movimentação, dizendo que ela foi totalmente legal.
O dinheiro saiu de uma conta pessoal de Meirelles no Goldman Sachs não declarada à Receita, disse o site. A nota diz que a conta não foi declarada por ter sido encerrada antes de 31 de dezembro de 2002 - logo, não precisava entrar na declaração de Imposto de Renda.
Na época da operação, Meirelles acabara de se eleger deputado federal pelo PSDB de Goiás. Indicado para a presidência do BC, renunciou ao mandato.
Segundo a ''Veja'', Meirelles é o dono da conta número 4029218701 do Goldman Sachs. No extrato do CBC, ao lado do nome de Meirelles, consta o de uma instituição identificada apenas como Mellon Pit. Do Goldman Sachs, os dólares seguem para a conta da Biscay Trading no CBC. Registrada sob o número 030102375, a conta pertence a uma offshore e é movimentada por três doleiros que atuam em São Paulo.
A Biscay Trading, que está sob investigação da CPI do Banestado, foi a mesma conta utilizada pelo presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, para movimentar US$ 85 mil entre 2001 e 2002.
Henrique Meirelles disse que a operação divulgada pela revista ''Veja'' foi feita com ''dinheiro legítimo, com Imposto de Renda pago e tudo declarado''. Ele disse estar tranquilo e que não cogita deixar o governo. Segundo Meirelles, ele fez inúmeros pagamentos nos Estados Unidos no ano de 2002, quando voltou para o Brasil. ''Se o problema é o valor elevado, o que posso fazer? Eu fiz vários pagamentos altos naquele ano. Agora, se o recebedor me deu uma conta de um doleiro, como minha secretária poderia saber?'', afirmou Meirelles.
Ele disse não ter condições, no momento, de identificar o nome da pessoa que teria recebido a quantia mencionada pela revista, de US$ 50.677,12. Se o documento referente à operação ainda existir, Meirelles disse que ele está arquivado nos Estados Unidos.
''Olha, tudo que é receita eu tenho documentado. O que eu usei para deduzir pagamentos de imposto, também. Mas não posso dizer se tenho todos os documentos referentes a pagamentos arquivados. Teremos de verificar'', acrescentou. Destacou ainda que o pagamento citado por ''Veja'' ''é apenas uma fração do que gastei em 2002''.
O presidente do BC fez questão de dizer que a operação refere-se, no seu caso, a um pagamento de despesa, não de remessa. Segundo ele, se o dinheiro foi remetido para o Brasil, isso foi feito pelo recebedor.
Meirelles afirmou, porém, que remeter dinheiro para o Brasil não é ilegal. Em sua opinião, a pessoa pode ter optado por uma forma não apropriada de enviar os recursos, por meio de um doleiro. ''Agora, no meu caso, eu costumo fazer remessas do exterior para o Brasil regularmente. Se o problema é o valor, paciência. Eu envio legalmente valores até maiores do que aquele, que foi um pagamento de uma despesa lá'', afirmou, acrescentando que a ordem bancária incluindo até centavos indica que foi apenas um pagamento.
Meirelles disse que conversou ontem com os ministros Antonio Palocci Filho (Fazenda) e Márcio Thomaz Bastos (Justiça) para esclarecer o caso. Afirmou ter recebido sinalizações do presidente Lula de que suas explicações são corretas e que fica no governo.
O presidente do BC disse que a conta usada para fazer o pagamento não consta de sua declaração de renda no Brasil porque ela foi encerrada no mesmo ano. ''Era uma conta de corretagem, aberta em 2002 e encerrada naquele ano quando decidi voltar.''


