O presidente Fernando Henrique Cardoso enfrentará, esta semana, todo o descontentamento de seus aliados com as medidas de ajuste fiscal e corte de gastos necessários para defender o real. Ele dedicou o fim de semana a discussões sobre economia com seus auxiliares e só deve retomar os contatos políticos na terça-feira, na tradicional reunião com os líderes partidários. Além dos cortes e do aumento de impostos, o presidente tem outra notícia ruim para os aliados: quer mesmo que até dezembro todos os ministros candidatos deixem seus postos, menos Antônio Kandir, do Planejamento.
Também na terça-feira o governo enfrentará um teste no Câmara, com a votação em plenário que prorroga até o final de 1998 a cobrança da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). A vigência da CPMF se extingue em janeiro do ano que vem e o aumento da alíquota, de 0,20% para 0,25%, era uma das medidas previstas no pacote que será anunciado hoje. ‘‘Prorrogar a CPMF já era um esforço hercúleo das lideranças governistas no Congresso, que se tornará ainda mais difícil com o aumento da alíquota’’, reagiu o líder do PMDB na Câmara, deputado Geddel Vieira Lima (BA).
Nas primeiras discussões sobre o pacote, o presidente orientou a equipe econômica a propor medidas que dispensassem aprovação legislativa, não apenas para produzir efeitos mais rapidamente mas também trabalhando com o cenário negativo no Congresso. Nos últimos dias, o presidente do PFL, deputado José Jorge (PE), o secretário-geral do PSDB, deputado Artur Virgílio (AM), e o líder do PSDB na Câmara, deputado Aécio Neves (MG), deram declarações contra o aumento de impostos.
O presidente prefere apostar que os políticos vão se render à realidade, que impõe medidas duras, como afirmou numa entrevista em Cartagena das Índias (Colômbia). ‘‘Não há realidade que imponha ao Congresso um aumento puro e simples de impostos’’, disse Geddel Vieira. ‘‘É preciso esperar pelo anúncio do pacote, para ver como o governo pretende dourar a pílula, como acredito que o presidente farᒒ. De fato, os economistas do governo preparavam medidas compensatórias para pelo menos duas áreas: construção civil e agricultura.
A estratégia do presidente é jogar tudo na defesa do real, mesmo que isso desagrade os aliados. ‘‘Pelo menos, ele está sendo claro e honesto com o Congresso’’, observou o deputado Saulo Queiroz (PFL-MT). ‘‘Errado seria deixar passar a renovação da CPMF para só depois surpreender os deputados com um aumento na alíquota’’. Antes mesmo da prorrogação, o governo já contava com a arrecadação de R$ 8,3 bilhões pela CPMF em 1998, um dinheiro que está até previsto na proposta de Orçamento para o ano que vem.

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