As medidas amargas adotadas pelos governos federal e estadual para balancear as contas públicas são necessárias neste início de ano, mas poderiam ser evitadas caso os governantes adotassem práticas de gastos mais efetivas, segundo especialistas ouvidos pela FOLHA.
Desde o início do ano, tanto a presidente Dilma Rousseff (PT) quanto o governador Beto Richa (PSDB) vêm anunciando uma série de medidas de austeridade que oneram o bolso do contribuinte e afetam direitos trabalhistas. Entretanto, as medidas contrastam com aumentos de salários para entes políticos e juízes, além de outros benefícios para o Judiciário.
Em âmbito federal, os reajustes fiscais e a alta dos combustíveis e da energia elétrica se somam ao arrocho de direitos previdenciários. Já no Paraná, o aumento do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) se une a medidas de austeridade, fomento à arrecadação e cortes nos direitos trabalhistas de servidores e professores em dois projetos de lei que tramitam na Assembleia Legislativa (AL) do Paraná. Por outro lado, o governador suspendeu o pagamento do aumento de 26,5% em seu salário, da vice e de secretários – apenas para o mês de janeiro.
Para o professor de Ética e Filosofia Política da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Elve Cenci, há uma lógica na política que independe de partidos de fazer um primeiro ano de gestão devido à "herança maldita" do antecessor, seguido de dois anos para regularizar as contas e fazer obras e um quarto ano de "bondades". "Quando chega no último ano, não há medidas impopulares e tem uma 'gastança' desenfreada. Só que o ano seguinte é o ano do caos", aponta.
Porém, o cientista político vê no Paraná uma situação mais crítica. "Não há indícios de que o governo federal esteja insolvente a ponto de não pagar salários. Mas, no Paraná, o governo não tem dinheiro para começar as aulas. Cortam no papel higiênico e na merenda", afirma.
Para o cientista político da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Ricardo Costa de Oliveira, já era esperado que, após os gastos eleitorais e das promessas, haveria a necessidade de reequilibrar as contas públicas. "Essa é a hora dos cortes e teremos depois os benefícios. Tanto que, nas eleições de 2018, já teremos esquecido (esses aumentos)", avalia.
Porém, ele vê diferenças nos públicos atingidos pelas medidas. "O Brasil não é um Estado dos que mais tributam, mas quem paga mais, relativamente, são os assalariados, principalmente os de menor renda", recorda. Além disso, não há uma divisão de esforços para equilibrar as contas. "No Paraná, com as medidas do governo, os mais prejudicados são os servidores públicos, enquanto juízes e deputados têm melhorias nos ganhos", compara.
Para a diretora do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas da UFPR, Ana Paula Cherobim, a situação poderia ser evitada caso o governo gastasse menos e melhor. "A Arena da Baixada (estádio curitibano) é um exemplo de um monte de dinheiro colocado num investimento privado para trazer meia dúzia de pessoas para a Copa do Mundo, com um dinheiro que poderia ser construído milhares de creches. O dinheiro que a Fomento Paraná emprestou para o empreendimento, poderia ter beneficiado milhares de pequenos empreendedores, gerando mais emprego e mais renda."
Para a especialista, a falta de retorno dos impostos pagos ao contribuinte é o principal motivo de descontentamento. "Mas por que vou pagar imposto se não tenho benefício? Por que pagar imposto para melhorar os salários dos professores do Estado se tenho de pagar escola privada? Por que pagar imposto pela saúde se tenho de pagar plano de saúde? A lógica de pagar impostos não é entendida pelo povo brasileiro, porque não enxerga os benefícios", ressalta.

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