Médico teve proposta para desbloqueio
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quinta-feira, 24 de agosto de 2000
Lúcio Horta De Londrina 
O médico Anis Rassi, de Goiânia (GO), que teve R$ 230 mil bloqueados em sua conta no Banco Santander, revelou ontem que doleiros de São Paulo propuseram o ressarcimento do valor. A única condição, para que o negócio fosse fechado, era que o médico desistisse de tentar recuperar o dinheiro na Justiça.
A origem dos R$ 230 mil são licitações fraudulentas realizadas na Prefeitura de Londrina durante o mandato do prefeito cassado Antonio Belinati (PFL). O Ministério Público (MP) conseguiu localizar o valor rastreando o dinheiro desviado. A pedido do MP, o bloqueio foi determinado no início do ano pelo juiz da 4ª Vara Criminal, Arquelau Araújo Ribas.
Anis Rassi contou ontem que a proposta de devolução foi feita ainda no primeiro trimestre desse ano, logo após receber a notícia sobre o bloqueio dos recursos. Um advogado do doleiro ligou para um dos filhos do médico e propôs o acordo. Rassi disse que não sabe o nome do advogado; os doleiros se chamariam Flora e Élvio, que trabalham juntos na capital paulista.
Ainda segundo o médico, houve apenas um telefonema, quando ele estava internado em São Paulo, e a proposta foi imediatamente recusada. Não me convinha (aceitar a proposta) porque, além do dinheiro, o meu nome também estava em jogo, afirmou ontem o médico. Ele completou: Eu estou atrás do meu dinheiro, mas do dinheiro legal, não de dinheiro sujo. O médico ingressou no Tribunal de Justiça (TJ) com mandado de segurança para tentar desbloquear o recurso. O caso está nas mãos do desembargador Otto Sponholz.
Os R$ 230 mil bloqueados em Goiânia são o primeiro valor desviado da Prefeitura de Londrina que foi localizado pelo MP. Ao todo, os promotores que investigam o caso já comprovaram o desvio de pelo menos R$ 16 milhões. Mas o rombo nos cofres públicos pode superar R$ 100 milhões.
Rassi revelou à Folha, na semana passada, que recebeu o valor depois de vender US$ 200 mil para um doleiro de Goiânia, conhecido como Valderez. O valor total da transação era R$ 340 mil antes do bloqueio, o médico gastou parte do valor em obra de um hospital. Valderez teria negociado a moeda americana com outros doleiros, de São Paulo, os mesmos que fizeram a proposta de devolução. O pagamento para o médico foi feito via bancária, por ordem de pagamento.
A partir do rastreamento do dinheiro desviado da Prefeitura de Londrina, o MP descobriu que os R$ 340 mil saíram da conta da empresa Gomes & Amâncio que ganhou licitação fraudulenta na Comurb passaram pela conta de outra empresa laranja e foram transferidos para a conta do médico. Rassi garantiu que os dólares tinham origem comprovada e que ele não sabia que os reais depositados em sua conta, como pagamento dos dólares, tinham origem ilícita. Extratos bancários, alegou, não dão esse tipo de informação.
Ontem, o médico voltou a lamentar a decisão da Justiça, de bloquear o valor. Ele acredita que o fato do dinheiro dele ter ficado mais de um ano parado em sua conta enquanto a maior parte dos recursos desviados da prefeitura tenha caído em contas de laranjas, e depois era sacado é uma demonstração cabal de que não agiu de má-fé quando vendeu os dólares. Além disso, lembrou que está levantando um hospital com sócios em Goiânia e que necessita dos recursos.
Eu fico com um sentimento de revolta muito grande. Já tem um ano e meio e eu não resolvi a minha situação. O dinheiro está bloqueado, com rendimento de poupança, e necessito urgentemente desses recursos para meu empreendimento, desabafou ontem. Hoje eu estou devendo essa importância, com juros dez vezes maiores do que a caderneta de poupança. Por isso espero que a Justiça de Londrina e de Curitiba veja meu problema com cuidado, concluiu.
Além dos R$ 230 mil localizados em Goiânia, o MP deverá recuperar outros R$ 25 mil que que saíram da empresa Realty Participações, de São Bernardo do Campo (SP), e entraram na conta de uma agência de viagens de São Paulo. A Realty lavou R$ 1,6 milhão desviado da prefeitura de Londrina em licitações fraudulentas.
Os R$ 25 mil teriam sido depositados por Márcio Luchesi, responsável pela Realty, como pagamento de um pacote de viagens para a África do Sul. Mas Luchesi e a família não viajaram e o valor ficou como crédito para o empresário. O MP chegou à agência de viagens rastreando o dinheiro desviado da prefeitura. Na semana passada, um advogado da agência disse aos promotores que o dinheiro será devolvido ao município.


