Médico confirma farsa em laudo sobre Tancredo
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quarta-feira, 20 de abril de 2005
Das agências 
Brasília - O mistério que cercou a doença do presidente eleito Tancredo Neves em 1985 ganhou a mídia na semana em que se registra o 20º aniversário da sua morte. O médico Gustavo Arantes, diretor do Hospital de Base do Distrito Federal à época em que o presidente Tancredo Neves foi internado, disse ontem que ''a família do ex-presidente sempre viveu de mentiras''. Segundo ele, ''Tancredo morreu porque era um paciente morredor, um paciente grave, que iria morrer de qualquer jeito''.
Arantes disse que os médicos resolveram contar o que aconteceu 20 anos depois porque foram procurados pela equipe do ''Fantástico'', da Rede Globo de Televisão. Eleito pelo Congresso, Tancredo não pôde assumir o cargo devido à doença. Após 38 dias internado, acabou morrendo no dia 21 de abril de 1985 sem nunca ter tomado posse. O seu vice, José Sarney assumiu a Presidência.
A primeira mentira, segundo o médico Gustavo Arantes, foi o pedido para fazer um laudo afirmando que o ex-presidente estava com uma diverticulite aguda perfurada, quando, na verdade, o diagnóstico era de leiomioma, um tumor benigno. Além da maquiagem do laudo, os médicos montaram uma outra farsa.
Na versão de Arantes, ''a pedido do establishment da chamada Nova República'', foi montada a foto em que Tancredo aparece, visivelmente inchado e ladeado pelo grupo médico que o tratava, como se a situação estivesse absolutamente sob controle. Em condições normais, um paciente com o quadro do ex-presidente não posaria para fotografias. ''Agora, a família ficou incomodada porque saiu a verdade. Essa foto só foi feita porque o establishment da Nova República pediu'', disse.
Os boletins médicos com informações falsas eram redigidos pelo médico Renault de Mattos, segundo informou o ex-diretor. E depois eram referendados por todos, inclusive, o cirurgião Pinheiro da Rocha. Ali, as informações falsas tinham como objetivo evitar que uma crise institucional se instalasse. Ele confidenciou que, na ocasião, chegou a pensar em não assinar os boletins. Disse que só os assinou após consulta ao Conselho Regional de Medicina (CRM), que teria lhe informado que sua assinatura como diretor responsável era obrigatória. Em 1985, mesmo ano em que Tancredo morreu, os médicos foram advertidos pelo CRM por terem fornecido informações falsas sobre o real estado de saúde do presidente.
''Nós fomos repreendidos porque não dissemos a verdade desde o primeiro momento'', confessou. Os médicos paulistas, chefiados pelo cirurgião Henrique Walter Pinotti, também sabiam da farsa, mas acabaram absolvidos pelo CRM paulista, segundo relato de Arantes. ''Eles sabiam de tudo desde o começo'', contou.
O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), neto de Tancredo, afirmou sobre a polêmica dos médicos do avô: ''O único sentimento que nos ocorre agora é de tristeza profunda por ver essa questão ser tratada dessa forma. Não vamos mais comentar essas declarações dos médicos todos.''


