Rio - A Comissão Interamericana de Direitos Humanos ''não era assim tão ativa'', diz o ministro das Relações Exteriores do governo Médici, Mário Gibson Barboza, responsável pelo contato formal com os organismos internacionais que cobravam informações sobre presos mortos e desaparecidos. ''Havia um sistema um pouco burocratizado da parte deles, não era uma instituição das mais ativas nem das mais importantes da OEA (Organização dos Estados Americanos)'', afirmou o embaixador, de 86 anos e 50 de carreira.
Segundo Gibson, o Itamaraty encaminhava ao Ministério da Justiça todos os ofícios enviados pela comissão. ''Muitos países não respondiam. Que eu saiba, o Brasil nunca deixou de responder. Direitos humanos era um tema do Ministério da Justiça. O Ministério das Relações Exteriores encaminhava os pedidos, mas não quer dizer que opinava sobre o assunto'', disse Gibson.
O ex-ministro lembra, porém, que envolveu-se diretamente nas negociações durante os sequestros dos diplomatas estrangeiros por grupos clandestinos de esquerda. Os diplomatas foram soltos em troca da libertação de dezenas de presos políticos. ''Tratei pessoalmente e não era tarefa das mais agradáveis. Os sequestros foram muito discutidos na OEA. Eu defendi no governo que fossem trocados pelos presos. Os ministros militares eram contra. Mas era preciso preservar a vida dos diplomatas e, além disso, o Estado brasileiro tem responsabilidade sobre o diplomata que atua no País.''
Na última segunda-feira, o ex-chanceler leu cópias de alguns documentos que tinham o carimbo do Ministério das Relações Exteriores e uma carta assinada por ele dirigida à CIDH e assegurou que os documentos foram elaborados pelo Ministério da Justiça. ''Estes não são termos do Itamaraty'', disse, citando alguns trechos.
Embora seu ministério não tenha cuidado diretamente de um tema delicado durante o regime militar a tortura, desaparecimento e morte de presos , Gibson diz que nunca ''fugiu'' do assunto. Autor do livro ''Na diplomacia, o traço todo da vida'', o embaixador acredita que ''houve abusos'' no tratamento dos presos. ''Certa vez, numa reunião, o presidente Médici disse: 'Proíbo torturas em meu governo'. As ordens não foram sempre cumpridas. Houve abusos certamente, embora eu não tenha visto'', diz o ex-ministro.
Gibson conta que, certa vez, disse ao presidente da República que ''o sistema de segurança era uma desordem absoluta''. ''Ele me respondeu que eu não era do Ministério da Justiça para tratar desse assunto. Eu disse que, se tivesse uma crise, eu estaria envolvido. E que o Ministério da Justiça tinha que coordenar a segurança, mas sabia que os ministros militares não aceitariam'', lembra o diplomata. (L.N.L.)

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