"Vai ter circo, um espetáculo jamais visto na história deste país"

Não vai ter circo?
As pendências sobre o ritual e a procedência legal do impeachment, no meio da semana, colocaram em risco o cronograma do processo e pelo jeito visavam claramente ganhar tempo e transferir a decisão para outro dia. Já havia sido extremamente desconfortável para o STF quando da primeira intervenção relativa ao tema. O grau de alinhamento das forças sociais e políticas em torno da questão é explosivo e não se descarta a hipótese de conflitos reais nas ruas incluindo aí o entorno do Congresso Nacional, a despeito da divisão das claques. Se prevalecesse o ponto de vista dos dois lados, ambos desejariam torcida única, tal qual a irracionalidade imperante.
É claro que enquanto as tentativas se derem no plano processual, como ocorreu na sessão histórica do Supremo da quinta feira, tudo estará na mecânica institucional,.como convém ao momento em que vivemos em que os poderes funcionam apesar de tanto o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, como Renan Calheiros, do Senado, estarem alcançados pelas malhas da Lava Jato como se dá também com a presidente e o vice no Executivo. Se é pertinente questionar as condições morais do presidente da Câmara Baixa para gerir a causa do momento, tal o seu protagonismo e suas intervenções para barrar procedimento ético, também é um erro não examinar a precedência que teria sobre o que está ocorrendo da matéria, já em trâmite na justiça eleitoral, contra a chapa Dilma-Temer, reeleita e acusada de beneficiar-se do propinoduto da Petrobras.

Palavras de (des)ordem
O código massivo, e normalmente imbecil, gerou a redução verbal do "não vai ter golpe", idiotice similar ao "não vai ter Copa", visível na disputa do mundial onde houve a tentativa de, pelo cerco aos estádios, torná-la real, o que se acontecesse. desmoralizaria o País e suas instituições. Como está sendo criado um clima de circo, que remonta à arena romana do Coliseu com seus gladiadores, na votação do impedimento da presidente pode-se imaginar uma palavra de ordem, centrada nos esforços obstrucionistas do governo, para uma palavra de ordem, apropriada aos guinchos voluntaristas, do "não vai ter circo".
Mas esse circo – o do debate do impeachment - não pode nem deveria ser cancelado até pelo nível de arregimentação, como nunca se viu neste país. Tanto que nem na Constituinte de 1988, em que pese a arregimentação lobística dos interesses, de ordem moral, econômica e ideológica, se observou esse alinhamento que tem seu aspecto fratricida, mas não deixa de ser uma presença da política na vida de todos, o que não é normal mesmo em tempo de eleições, em que pesem a ignorância e nossos baixos padrões cívicos e a prática descarada do absenteísmo, visível no alude dos votos nulos e brancos, isso sem falar nas molecagens de eleger o Cacareco ou o Bode Cheiroso como deboche, crítica ou escapismo.
Discussões paralelas e menores, como a estabelecida em torno da ordem de votações, vista como uma forma de criar um fator indutor para o impedimento, entraram no bojo das demandas levadas ao STF. No meio das discussões, em que se tentava impor a ordem nominal, como se o processo de Collor tivesse criado jurisprudência, houve a solução mista de votar um grupo do norte, outro do sul, enfim num revezamento de bancadas. A paranoia sugeria que a montagem de Cunha, ratificada pelo Supremo, geraria um efeito-cascata a favor da banda de oposição, hoje majoritária, pretexto absurdo, todavia compreensível, no terreno minado das operações em andamento.

Marcação continua
O radicalismo das posições indica que um pleito pela concórdia nacional na hipótese de Dilma levar a melhor cairá no vazio e no mesmo sentido, partido da oposição só funcionará entre seus adeptos. E se o bloqueio de estradas de ontem sinaliza que haverá renovadas barricadas com o impedimento, mesmo os majoritários (que podem perder se houver 172 votos de hostilidade ao afastamento) teriam dificuldades de esboçar plano de união nacional enquanto a pendência não chegar ao Senado.
O fato é que vai ter circo, um espetáculo jamais visto na história deste país, ainda que as figuras envolvidas sejam tragicamente e pouco dotadas nas artes de expressar aspirações nacionais. O circo, isso é a arenga política, nunca foi tão necessário, tal o aguerrimento das forças envolvidas e seja qual for o resultado entraremos certamente num clima de descompressão que não afrouxará a tensão econômica pela persistência da crise. O país prende a respiração em domingo sem futebol para acompanhar, voto a voto, com aquela pasmaceira do "pelo Brasil e pela democracia pelo impeachment" ou "pelo país imortal pelo não ao golpe", um mau espetáculo por repetitivo e chato, um circo de homens amestrados com menos talento dos animais, enquanto a plateia faz cálculos para ver como anda o placar. Como carecemos, tal qual os clássicos, de circo (a política), mas também do pão (economia) um lado e outro, dependendo de quem ganhar, poderemos ficar como no caso francês com aquilo que aristocracia chamou de brioches.

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