Mazza
Vigília que não funcionou
Pode ser que como vigília defensiva o acampamento montado em favor de Lula funcione, já que não operou quando ele estava no governo e como função saneadora. Uma vocação de vigília discutível: como o próprio presidente, ela não percebeu o que o simulacro de Guevara, José Dirceu, aprontava no mensalão. Um dos terríveis limites do mensalão foi não apurar as responsabilidades do presidente, como se ele vivesse num outro planeta e não estivesse tão perto da área de manipulações.
Fala-se tanto em autocrítica e ela caberia aos vigilantes: se são tão engajados por que deixaram tudo acontecer e muito antes da chegada à presidência com sinais de alarme como o do assassinato do prefeito de Santo André e os desvios municipais e estaduais que tisnavam a bandeira da ética do partido?
O culto ao patriarca é incompatível com autocrítica, até porque a função de descobrir defeitos no chefe é tarefa exclusiva dos adversários. Apesar de decisões judiciais sobre o interdito proibitório, a vigília no bairro Santa Cândida continua, como se os moradores do entorno fossem cidadãos de segunda classe e os manifestantes de primeira. Essa propensão fascistóide não é captada e continuará até o momento em que houver um conflito em que a dissuasão policial se tornar impossível.
Se os vigilantes tivessem vigiado lá atrás, nem o impeachment da Dilma Rousseff haveria.
Incidente
No lançamento de um livro dos procuradores da Lava Jato uma dezena de lulopetistas foi até lá para tumultuar e vaiar. Pode ser, daqui para a frente, uma linha de conduta no sentido de marcar posição, fazer já enquanto é tempo aquilo que haviam prometido caso houvesse a prisão com o MST nas estradas e na ocupação de prédios públicos.
PCC aqui
Durante muito tempo autoridades negaram que o crime organizado tivesse chegado ao sistema prisional do Paraná e agora a polícia paulista desencadeou operação em 14 estados, inclusive em nossa região, cumprindo 63 ordens de prisão, uma delas em Londrina. Tudo se deu na interceptação de bilhetes na rede de esgoto de uma penitenciária. Manuscritos, após a apreensão e higienização, foram remontados pelas cores de canetas e caligrafias. Sete chefes do segundo escalão do Primeiro Comando da Capital, PCC, foram identificados como autores das mensagens. A operação Echelon (em grego escalão) é desdobramento da Ethos de 2016, quando a Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo monitorou as formas de comunicação de chefes do PCC na unidade de segurança máxima de Presidente Venceslau.
O preso em Londrina, tido como articulador do PCC na região, é Jonathan Henrique Santiago, que era investigado há meses e foi deslocado para São Paulo.
6 a 5 de novo
Temas fundamentais levados ao STF tiveram votação acirrada e até decidida pelo voto de Minerva, como se deu com os 6 a 5 da permissão do ensino religioso em escola pública. A proibição das conduções coercitivas, anteontem, também por esse placar, revela uma espécie de alinhamento doutrinário semelhante ao que ocorre relativamente à prisão pós decisão de segunda instância que a qualquer momento retorna à pauta. Tanto o da condução coercitiva como o da prisão pós decisão de segunda instância atingem frontalmente a Lava Jato, divisor dessas posturas ministeriais. Pelo jeito entreveros semelhantes se darão em breve e indicam que a Lava Jato deixou de ser o que era nos seus primeiros impulsos, como o das prisões dos maiores empresários do país. Hoje ela não teria as mesmas facilidades por ser mais questionada, como se dá agora e cada vez com maior intensidade. Símbolo forte do ciclo punitivista, a condução coercitiva vigora no país, como acentuou o ministro Luis Roberto Barroso, desde 1941, e ela sinaliza novas e contundentes restrições como essa da sua discutível inconstitucionalidade. O ministro Gilmar Mendes, que comandou a reação ao conceder liminar contrária, já prometeu abertamente levar o hábito das prisões prolongadas ao colegiado.
De outro lado, há esforços de criminalistas para o exame da delação premiada e as suas consequências no processo criminal. Ainda recentemente, para acentuar o lado polêmico da questão, o juiz Sergio Moro manifestou-se pela blindagem desses acordos a órgãos da União como o Tribunal de Contas. O momento não é bom para a linha geral da Lava Jato, e quem mais comemora é, por motivos óbvios, a classe política para estancar, como disse Romero Jucá, a sangria desatada. O crime do colarinho branco exulta.
Folclore
O grau de arregimentação das pessoas no Brasil, marcado pela intolerância, é de tal ordem que não teríamos como levar à frente uma questão como a do aborto em trâmite na Argentina. Lá, mesmo sendo a terra do Papa Francisco, não houve como deter a vitória na Câmara dos Deputados da descriminalização do aborto. Aqui dividiria mais o país do que a própria prisão do Lula. Engajamento e arregimentação de grupos religiosos são mais fortes do que eventuais fundamentos ideológicos, o fanatismo é mais visceral, orgânico, furioso...





