''Matamos para não morrer''
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domingo, 21 de abril de 2002
Carlos Mendes Agência Estado 
Belém - Pela primeira vez em seis anos, policiais militares e representantes de associações que cuidam dos interesses de soldados, cabos e sargentos da Polícia Militar do Pará envolvidos no episódio que ficou conhecido como o Massacre de Carajás, a morte de 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás, quebram o silêncio: estávamos a serviço do Estado, que nos abandonou e agora quer nos condenar, mas matamos para não morrer.
Ameaçados de prisão e transferência se falarem sobre o massacre, quatro militares, pedindo para não ter seus nomes divulgados, acusam o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de no dia 17 de abril de 1996, Na Curva do S, jogar a multidão armada de revólveres, foices, paus e pedras contra a tropa. Eles reconhecem que não estavam preparados para a aquela missão, porque não possuíam cassetetes, bombas de efeito moral e balas de borracha. E, para se defender da fúria dos sem-terra, alegam ter atirado em legítima defesa.
Para os militares, a responsabilidade pelas 19 mortes deve ser atribuída ao governador do Estado, Almir Gabriel, ao secretário de Defesa Social, Paulo Sette Câmara, e ao ex-comandante-geral da PM, coronel Fabiano Lopes. A tentativa de ouvir essas três autoridades foi inútil. Assessores do governo informaram que nenhum dos três irá comentar a acusação dos enquanto o processo ainda estiver pendente de julgamento.
Nós já estamos pagando por receber ordens superiores para desobstruir de qualquer maneira aquela estrada. Nem o governo nem a PM nós dá qualquer assistência, queixam-se os soldados. Quase todos os 130 soldados e cabos continuam trabalhando normalmente nos quartéis de Marabá e Parauapebas. Seis policiais foram assassinados na região e por conta disso acabaram excluídos do banco dos réus.
O soldado João (nome fictício) é taxativo: para mim, os que estavam em Eldorado dos Carajás são totalmente inocentes. Graças a Deus a imprensa filmou e mostrou pra todo o mundo o ataque dos sem-terra contra eles. Se houver justiça, eles devem ser absolvidos.
Chamado várias vezes de assassino nas ruas pelo MST, Pedro conta ter sido baleado em duas emboscadas feitas por posseiros contra a PM, em Xinguara. Depois, em Eldorado dos Carajás, ele viu cinco dos nove homens que o balearam serem mortos. Vi a morte duas vezes, mas para mim não teve direitos humanos. Ninguém foi me visitar no hospital ou ajudar minha família, afirma o soldado.
O advogado Paulo Ronaldo Albuquerque, um dos defensores dos soldados e cabos, garante que vai apresentar uma bomba durante o julgamento, cuja data deve ser marcada quinta-feira pela juíza Eva do Amaral Coelho.
Ele adianta que vai provar que vários soldados sequer estavam no local onde os sem-terra foram mortos, embora tenham sido pronunciados para sentar no banco dos réus. A tese que Albuquerque vai defender é a da autoria incerta.
A alegação é de que nem o Ministério Público nem as testemunhas arroladas nos 30 volumes do processo até hoje não conseguiram dizer quem e de que maneira matou os 19 trabalhadores rurais.


