Brasília - Depois de formalizar ontem sua saída do PT após mais de 30 anos no partido, a senadora Marta Suplicy (SP) disse que tomou uma decisão "muito dura", mas fez o necessário porque se sentiu "traída" por uma sigla que rompeu "com todos os princípios éticos" para os quais foi criada. Ao afirmar estar "aliviada" com sua decisão, Marta disse que não tinha mais "ambiente" para estar no PT. A senadora disse que estava em "luto" há muito tempo, mas ficará "menos agoniada" fora do partido do que dentro dos seus quadros. "Eu tinha princípios éticos, o partido rompeu todos os princípios pelos quais foi criado. Não tenho mais ambiente, vontade de estar em um partido que me senti de certa forma, como milhares de petistas ou de pessoas que votaram no PT, traída."
A senadora nega que sua saída do PT tenha como objetivo disputar a Prefeitura de São Paulo em 2016, já que Fernando Haddadd (PT) deve disputar a reeleição. Mas não desmente sua disposição de concorrer ao cargo, o que seria praticamente impossível dentro do PT. "Eu tenho uma avenida para pensar o que vou fazer. Sou paulista, paulistana, muito crítica à prefeitura que está tendo São Paulo hoje. Mas é uma possibilidade muito forte."
Sem poupar críticas ao PT, Marta disse que "deu o sangue" no partido ao qual ajudou a criar, mas optou pela desfiliação após um processo de reflexão que não tem ligação direta com a presidente Dilma Rousseff - da qual foi ministra da Cultura. A senadora também foi ministra do Turismo no governo do ex-presidente Lula. "Não tem nenhum (peso da presidente Dilma na decisão). É uma coisa referente a um partido que ajudei a fundar, dei o sangue, trabalhei muito, acreditando nos princípios do partido, na justiça social, na cidadania, tudo isso. O PT rompeu esses princípios."
Apesar de o PT ter recebido com críticas sua desfiliação, Marta disse estar "tranquila" de que não perderá o mandato, caso o partido reivindique sua cadeira no Senado. Segundo a senadora, um parecer do procurador-geral da República deixa claro que a perda do mandato não se aplica a cargos majoritários, como dos senadores. "O mandato majoritário é do senador, é do mandatário. Ele usa a estrutura partidária, mas o voto que é dado é na pessoa", afirmou. Sobre sua nova filiação após deixar o PT, Marta confirmou que está em conversas "avançadas" com o PSB, mas também negocia seu ingresso com outros partidos, como o PDT. A decisão, segundo ela, será tomada "muito antes de outubro", prazo máximo para a filiação caso venha a disputar a prefeitura de São Paulo.

NA JUSTIÇA

O presidente do PT de São Paulo, Emídio de Souza, avisou ao comando nacional do partido que reivindicará na Justiça Eleitoral o mandato da senadora Marta Suplicy. O teor de seu pedido de desligamento irritou a cúpula partidária, até então dividida sobre a hipótese de ir à Justiça. A assessoria jurídica do PT busca argumentos para desqualificar a tese de que a permanência de Marta no partido seria inviável. O secretário de Organização do PT, Florisvaldo Souza, afirmou que a carta é uma prova de oportunismo da senadora, que se se diz vítima de perseguição após ter questionado as denúncias de corrupção contra o partido. "Simplesmente falar isso depois de tanto tempo é puro oportunismo. Vida que segue", afirmou.

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