A petista Marta Suplicy confirmou o favoritismo de sua candidatura ao longo da campanha pela sucessão paulistana e foi eleita prefeita. A psicanalista abriu vantagem de 17 pontos percentuais sobre o ex-prefeito Paulo Maluf (PPB). Até as 21h50, com 99,99% das urnas apuradas, Marta tinha 58,51% dos votos válidos e o pepebista 41,49%. Com 3.247.639 votos, ela conquistava o melhor resultado já obtido pelo PT em São Paulo, que em 1988 elegeu Luiza Erundina a primeira prefeita da capital.
Logo após o encerramento da votação, Marta comemorava a vitória, depois de reclamar da estratégia ‘‘cafajeste’’ de seu adversário durante todo o segundo turno. Agradeceu a confiança dos eleitores e prometeu fazer um governo ‘‘transparente’’ e ‘‘amplo’’, com a participação dos partidos que se aliaram a sua campanha. Avisa, porém, que vai priorizar ‘‘critérios técnicos’’ na escolha do secretariado.
‘‘Essa é uma vitória de todas as forças democráticas da cidade’’, disse. Ela obteve o apoio de PSDB, PMDB, PSB, PPS, PDT e PTB. Sua coligação era formada por PC do B, PCB e PHS.
O clima áspero entre os concorrentes teve pouco reflexo nas ruas. A eleição ocorreu tranquila e Maluf admitiu a derrota pouco depois da divulgação das pesquisas de boca-de-urna. Dizendo-se vitorioso -o pepebista projetou o próprio desempenho em 2,5 milhões de votos - prometeu continuar na vida pública. ‘‘Só levo alegria dessa campanha’’, afirmou.
Malufistas reunidos na porta de sua casa, entretanto, não compartilhavam da disposição do pepebista, que prometeu até rezar por Marta. Hostilizaram quem passava nas proximidades sem demonstrar apoio ao ex-prefeito. Com a derrota consumada, o grupo irritou-se mais e reproduziu pequenos confrontos registrados em 1998, quando Maluf perdeu o governo para Mário Covas. Os petistas, por sua vez, começaram ocupar a Avenida Paulista para celebrar a vitória já às 15h30.
O PT volta a assumir o poder em São Paulo com outra mulher, doze anos depois da eleição de Luiza Erundina. Marta Suplicy é dona de perfil bem mais amplo do que a esquerda vitoriosa de 1988. Nas fileiras petistas, não há dúvida: a administração de Marta será o maior desafio desde que Erundina, hoje no PSB, foi eleita.
Para o PT, dar conta da capital paulista é uma missão muito mais emblemática do que governar Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Acre. ‘‘Um erro em São Paulo pode ser fatal’’, resume o deputado João Paulo Cunha (SP), que coordenou o Grupo de Trabalho Eleitoral durante quatro meses.
A cúpula petista tem avaliação bem pragmática: qualquer passo em falso prejudicará a legenda em 2002, quando haverá eleição para governadores e presidente. Com Marta, o PT quer mostrar que ganhou músculos e amadureceu. ‘‘Estamos calejados e preparados para administar cidades, Estados e o País’’, diz seu presidente de honra, Luiz Inácio Lula da Silva, virtual candidato à presidência.
Não é à toa que se trata de importante desafio para a legenda. Maior cidade da América Latina, São Paulo tem o quarto maior orçamento do País (R$ 7,495 bilhões para 2001). Mais: o PT faz mea-culpa e considera ter um saldo devedor com os paulistanos por causa do governo Erundina (1989-1992), quando o partido manteve relacionamento extremamente conturbado com a então prefeita.
‘‘Temos uma dívida com a população de São Paulo’’, diz João Paulo. ‘‘Nossa passagem pela prefeitura, até por inexperiência, pelo cerco do poder econômico e por nossa convivência conflituosa com Erundina, deixou algumas impressões equivocadas.’’ No seu diagnóstico, a eleição de Marta representa um ‘‘reencontro’’ com a responsabilidade institucional. ‘‘Meu relacionamento com o PT não é conturbado, como foi o da Luiza Erundina’’, destaca Marta.

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