Marta assume desafio de reconstruir SP
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segunda-feira, 01 de janeiro de 2001
Ana Paula Scinocca e Elizabeth Lopes de São Paulo Agência Estado 
Além da reconstrução de São Paulo, atolada em dívidas que chegam a R$ 10,5 bilhões só com a União, um dos grandes desafios que a prefeita eleita Marta Suplicy (PT) enfrenta a partir de hoje, quando assume a maior prefeitura da América Latina, é o próprio partido. Apesar de ter reunido um secretariado de coalizão, que contemplou as correntes do PT, das legendas aliadas (PC do B e PSB) e ainda incluiu alguns notáveis, analistas políticos acreditam que a prefeita terá de mostrar habilidade e um forte poder de negociação para ultrapassar, primeiro, as resistências internas da sua própria sigla e iniciar as mudanças que precisam ser implantadas no município.
Ao comentar esta análise, a prefeita reage: Não teve confusão até agora e também não vai ter. Nomeei 17 secretários que eu escolhi, inclusive teve uma enorme cooperação e eu não tenho nenhuma intenção de pensar o partido separado de mim. Marta explica também que conseguiu fazer uma ampla costura de sustentação partidária que deverá lhe garantir tranquilidade no partido e que é necessário as pessoas entenderem que o PT mudou. Apesar desses argumentos, ela admite que, nas relações com o partido, ser psicanalista e psicóloga ajuda.
Além dos problemas internos, que os analistas prevêem e a prefeita refuta, Marta vai encontrar uma cidade falida e desestruturada. Terá pela frente uma dívida de R$ 10,5 bilhões com a União, não vai dispor de recursos suficientes para honrar os compromissos com fornecedores (o próprio secretário das Finanças e Desenvolvimento Econômico, João Sayad, já admitiu atrasos no pagamento a fornecedores), pagar o funcionalismo e colocar em prática os projetos sociais pregados durante sua campanha, como renda-mínina, bolsa-trabalho e bolsa-escola, entre outros. Somado a isso, a administração de Marta será vitrine para o PT nas eleições gerais de 2002.
Marta foi eleita para reconstruir São Paulo. Não se pode fazer pirotecnia e utilizar a cidade de trampolim para 2002, avalia o secretário de Saúde, Eduardo Jorge. Para ele, a disputa de 2002 não tem de estar em jogo neste momento, uma vez que a capital enfrenta sérios problemas estruturais. Na sua área, por exemplo, ele garante estar ciente de que terá mais dificuldades do que na ocasião em que esteve à frente da mesma pasta, por dois anos, na primeira gestão do PT na prefeitura, de 1989 a 1992.
Na análise do cientista político Fernando Luiz Abrucio, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), um dos grandes desafios da nova administração será a implantação das subprefeituras, com a quebra do esquema de clientelismo arraigado há muitos anos nas Administrações Regionais (ARs). Na escolha do secretário dessa pasta, o PT exibiu suas divergências internas. O deputado federal Arlindo Chinaglia (PT-SP) venceu a disputa contra o deputado estadual Jilmar Tatto, que foi contemplado com a Secretaria de Abastecimento.
Os adversários do PT lembram que a família Tatto é conhecida pelo controle da Administração Regional da Capela do Socorro, em São Paulo, e que um dos irmãos de Jilmar, Leonide Tatto, foi administrador regional da gestão de Luiza Erundina na prefeitura (ex-PT e atual deputada federal pelo PSB). A disputa entre Chinaglia e Tatto só foi superada pela intervenção direta da prefeita, que convenceu o novo titular da pasta do Abastecimento de que seu setor teria maior vínculo social, e acabou abafando o princípio de mais uma crise interna.
Nos bastidores do partido, é possível saber também que o PT enfrenta outros problemas. Os vereadores aliados, por exemplo, não aceitaram ser excluídos do primeiro escalão da administração petista. Outra questão é o estilo centralizador e autoritário da nova prefeita, que já recebe críticas de setores de seu próprio partido. Em contrapartida, ela refuta: Eu falo e decido por mim mesma. E se algo der errado, a responsabilidade vai recair sobre a minha pessoa. Fui eu quem foi eleita.
Para o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), o perfil de Marta poderá ser um grande aliado na difícil tarefa que ela tem frente à prefeitura. Marta tem um diálogo social maior que o do PT e seu poder extrapola as fronteiras do próprio partido. O erro da primeira administração do PT na capital foi justamente o isolamento e a falta de coalizão. Teixeira acredita que os dirigentes do partido evoluíram nesse período e sabem que o PT não pode governar sozinho. E ele acredita que a prefeita também tem consciência disso.


