Caetanópolis - Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF), mais de um ano depois, prepara-se para julgar o recebimento ou não da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra 40 acusados de envolvimento com o mensalão, o empresário Marcos Valério continua exibindo alto padrão de vida. Apontado como operador do suposto esquema de pagamento de propina a parlamentares em troca de apoio ao governo durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Valério teve os bens bloqueados pelo STF, mas recentemente adotou o figurino de fazendeiro.
Nos últimos meses, entre produtores rurais da pequena Caetanópolis e da vizinha Paraopeba, na região central de Minas Gerais, circularam rumores de que o ex-sócio das agências de publicidade DNA e SMPB Comunicação havia adquirido a Fazenda Santa Clara, de criação de gado nelore. Por meio de assessores, Valério afirma que não comprou, mas arrendou a propriedade onde abriga 11 cavalos de raça incluídos no rol de bens sob bloqueio. O imóvel se destaca na localidade rural, ostentando uma suntuosa sede com 700 metros quadrados - distribuídos em dois pavimentos - e extensa área de lazer.
No cartório de registro de imóveis de Paraopeba, a fazenda está em nome de Benito Porcaro Filho, um conhecido criador de nelore da região.
Escrituras de compra e venda em Caetanópolis registram que a propriedade possui um total de 311,70 hectares, resultado da aquisição pelo pecuarista de duas fazendas (Santa Clara e uma outra, a princípio denominada Santa Luzia) em dezembro de 1992, além de uma pequena área de 2,40 hectares, comprada em julho de 2005. No cartório de títulos e documentos de Paraopeba, porém, a informação é que não foi encontrado nenhum contrato de arrendamento entre o fazendeiro e Valério.
Há quase dois anos, o personagem que ganhou o noticiário nacional durante o escândalo que abalou o governo Lula adotou a discrição e evita declarações públicas. Desde então, para não ser reconhecido, chegou a circular de barba, abandonou a careca total, deixou crescer cabelo nas laterais e, há pouco tempo, recorreu a um implante.
Em meio às especulações de que teria comprado a propriedade por R$ 6 milhões, Valério divulgou nota onde afirma que somente arrendou a propriedade e, como fiel depositário dos cavalos perante a Justiça, ''tem a obrigação legal de zelar pela integridade dos mesmos até que o processo seja concluído''. O casal Porcaro também reiterou que a propriedade foi arrendada e continua sob seu domínio.
O advogado Marcelo Leonardo, que representa Valério, alegou que o contrato de arrendamento não necessita de registro. ''As partes apenas precisam fazer as respectivas declarações de renda na época própria.'' O valor do aluguel da fazenda não foi informado.
Com os bens inalienáveis, Marcos Valério cobra do PT suposta dívida que ultrapassa R$ 100 milhões pelos empréstimos - no valor original de R$ 55 milhões -, com juros e correções, contraídos junto ao Rural e Banco BMG a pedido do então tesoureiro do partido, Delúbio Soares.
Como ele faz atualmente para pagar as contas e os caros advogados, porém, ganhou ares de mistério. Valério continua ''atendendo'' no elegante escritório localizado no bairro Savassi, região sul da capital mineira. O criminalista Marcelo Leonardo diz apenas que seu cliente trabalha como ''consultor de empresas''.

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