Ariosto Teixeira
Agência Estado
De Brasília
A reação do Palácio do Planalto ao slogan ‘‘Fora FHC’’, que deu o ritmo da Marcha dos 100 Mil, na última quinta-feira, em Brasília, aumentou o interesse do mundo político para o conteúdo do debate em curso no interior do Partido dos Trabalhadores (PT) sobre a redefinição da linha doutrinária e da estratégia de conquista do poder da legenda.
A simples leitura das teses apresentadas para o debate no 2º Congresso do PT, previsto para o final de novembro, em Belo Horizonte, mostra o domínio de propostas com o objetivo de depurar a política de alianças do partido, das críticas à institucionalização da ação dos seus dirigentes detentores de mandato e de crescimento da idéia de que é possível uma campanha para depor FHC e antecipar as eleições presidenciais de 2002.
‘‘Queremos fazer do PT a principal força do movimento que exige a saída de Fernando Henrique e a antecipação das eleições’’ revela o texto ‘‘Reconquistar o PT’’, assinado por deputados federais, estaduais e prefeitos petistas, entre os quais Adão Preto (PT-RS), Luciano Zica (PT-SP), Cláudio Vereza (PT-ES), Jomar Fernandes (PT- MA) Luci Choinacki (PT-SC) e José Fritsch, prefeito de Chapecó (SC). O grupo defende a reforma socialista do Estado e da sociedade, indicando como exemplos a reestatização das empresas privatizadas e o controle social dos meios de comunicação, ‘‘acabando com os monopólios, a começar pelo da Rede Globo’’.
Alguns dirigentes nacionais do PT, entre os quais seu presidente, José Dirceu (SP), o líder na Câmara, José Genoino (SP), e a maior estrela da legenda, Luiz Inácio Lula da Silva, subestimaram os primeiros documentos deste debate a virem a público, sob o argumento de que se tratava de um caderno de pré-teses formuladas no âmbito municipal do PT de Porto Alegre.
Os textos do PT gaúcho causaram espanto pelo radicalismo de algumas propostas, subscritas por militantes e dirigentes que desfrutam de posições de efetivo poder no governo do Rio Grande do Sul e na Prefeitura de Porto Alegre e deram aos estrategistas do governo Fernando Henrique a base material para a denúncia de que a marcha sobre Brasília era o início de uma conspiração golpista.
Apesar do quase desdém com que foram tratadas pela direção partidária, negando-as como representativas do pensamento dominante no partido, a verdade é que as idéias das facções do PT gaúcho se assemelham, na forma e no conteúdo, a maioria das teses que o PT nacional se prepara para discutir no 2º Congresso, previsto para o final de novembro, em Belo Horizonte.
As tendências a que se filiam deputados federais, como Adão Preto, o vice-governador gaúcho Miguel Rosseto, e a deputada estadual Luciana Genro, filha do ex-prefeito da capital, Tarso Fernando Genro, acreditam que o desenlace da crise brasileira está fortemente associado à disputa em andamento no interior do PT. Esses grupos advertem que a prevalência das teses que desejam um partido moderado abrirá o caminho ‘‘para um novo pacto das elites’’ e a renovação do bloco que hoje sustenta o governo FHC.Depois do protesto, propostas radicais vão a congresso fortalecidas, para defender ampla redefinição de doutrina e de estratégias
Arquivo FolhaCÁLCULOJosé Dirceu: primeiros documentos foram subestimadosArquivo FolhaLOCALGenoino: apenas pré-teses no âmbito regional gaúcho

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