O Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (Cadim), unidade da Marinha onde o presidente Fernando Henrique Cardoso vai passar o réveillon com a família, abrigou um entreposto do tráfego de escravos africanos durante o Império. Naquele período, a ilha era um importante ponto de recebimento e triagem de escravos, que, depois de cumprir período de quarentena, eram vendidos e transferidos para outras fazendas da região.
A ilha, situada no litoral sul fluminense, tinha praticamente toda a sua área pertencente à fazenda São Joaquim, uma das principais da região na época, que chegou a contar com cerca de 6 mil escravos. A propriedade, onde eram cultivados mamona, cana-de-açúcar e café, pertencia ao comendador Joaquim José de Souza Breves, conhecido como o Barão do Café.
Com a morte do comendador, em 1889, a fazenda entrou em decadência, e os únicos resquícios ainda hoje existentes das construções da época são as ruínas da sede da fazenda e uma pequena capela, ambas na praia da Armação, e uma senzala que foi remodelada e transformada em alojamento de oficiais da Marinha em trânsito.
Em 1891, toda a área da restinga da Marambaia foi adquirida pela Companhia Promotora de Indústrias e Melhoramentos, que entrou em liquidação cinco anos mais tarde e transferiu a propriedade para o Banco do Brasil. Em 1908, a Marinha, que havia recebido da União a responsabilidade pela administração da área, instalou na ilha a Escola de Aprendizes-Marinheiros do Estado do Rio, instituição que seria transferida dois anos depois para Campos.
No início do século, a ilha ficou praticamente abandonada, sendo habitada apenas por pescadores e suas famílias. O local voltaria a desfrutar de importância na região a partir de 1939, quando o Abrigo Cristo Redentor, uma entidade assistencial, construiu na ilha a Escola Técnica de Pescadores, cujo projeto original foi ampliado mais tarde e veio a receber uma capela, hospital, farmácia, padaria, píer e fábricas de sardinha, gelo e de rede para pesca.
O objetivo da entidade era tornar a colônia auto-suficiente, mas a estrutura existente no local entrou novamente em decadência em meados da década de 50. Em 1971, todos os bens existentes na ilha foram reincorporados pela União, pois a entidade se declarou sem condições de manter a estrutura montada na Marambaia. No mesmo ano, o Ministério da Marinha assumiu a administração do local e inaugurou, em 1981, o Cadim.
Ainda hoje moram na ilha descendentes de escravos e de funcionários do Abrigo Cristo Redentor, que vivem da pesca e recebem também assistência (médica e de transporte) da Marinha. Além disso, graças a um convênio com a Prefeitura de Mangaratiba, a Marinha garante educação escolar até a quarta série do primeiro grau para as crianças da ilha. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também atua no local, desenvolvendo pesquisas ambientais.
O presidente Fernando Henrique Cardoso, que chegou ontem à ilha, ficará hospedado numa casa de oficiais que administram o Cadim. A casa foi descrita como ‘‘simples e bem rústica’’ pelo capitão-de-corveta Armando Soares, comandante do Departamento de Comunicação Social do 1º Distrito Naval. Segundo ele, a casa é equipada com aparelhos de ar-condicionado, embora as instalações não sejam luxuosas.

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