Brasília - O novo ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que as metas de superávit primário ''são sagradas'', que a política econômica não muda, que o governo tem condições de manter a queda dos juros e que vai avaliar se mantém ou não a equipe econômica. ''Primeiro vou tomar pé da situação para ver depois se será preciso fazer alguma mudança'', disse Mantega, em entrevista no Palácio do Planalto logo depois de participar de uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e com os ministros da Casa Civil, Dilma Rousseff, da Integração Nacional, Ciro Gomes, das Relações Institucionais, Jaques Wagner, e com o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP).
Mantega disse ainda que a política econômica não é do ex-ministro Antonio Palocci, mas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que é o seu fiador. ''A inflação está sob controle, as contas públicas equilibradas e a vulnerabilidade externa reduzida aos menores patamares''. Ele lembrou que a situação é tão favorável que o Brasil pode até programas o pré-pagamento de suas dívidas.
O ministro da Fazenda disse que o processo de crescimento econômico continua e que a geração de emprego está mantida. Afirmou que foram gerados 3,7 milhões de empregos e que neste ano a tendência é que essa taxa aumente. Previu crescimento econômico para este ano entre 4% e 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Afirmou também que o País manterá os investimentos na área social em torno de 2,5% do PIB.
Mantega não quis defender seu companheiro de partido, o ex-ministro Antonio Palocci. Disse que se ele cometeu desvios, ele é que deve responder. Afirmou que não vê nenhuma mancha difícil de ser apagada no Ministério da Fazenda por conta da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa. ''Se houve violação do direito constitucional isso vai ser verificado. Não estou aqui para fazer análise dessa situação''.
Escolhido para ocupar a vaga deixada por Antonio Palocci, Guido Mantega, 56 anos, marcou sua atuação no governo, tanto como ministro do Planejamento, quanto como presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico) por divergências explícitas com a equipe econômica comandada por Palocci.
Mantega sempre criticou o alto patamar fixado para a TJLP (taxa que referencia os empréstimos do BNDES) e expôs suas divergências quanto à condução das políticas monetária e fiscal. Em dezembro passado, Mantega criticou abertamente a atuação do Banco Central (BC), responsável, segundo ele, pela retração de 1,2% do PIB no terceiro trimestre de 2005. ''O que houve foi mesmo excesso de zelo do Banco Central'', disse à época.
Em toda sua gestão à frente do BNDES, Mantega achou exagerado o conservadorismo da equipe econômica de Palocci. Em dezembro de 2005, Mantega teve uma grande vitória. Conseguiu que o Conselho Monetário Nacional baixasse a TJLP de 9,75% ao ano para 9%. Mantega pedia uma taxa mais baixa como forma de promover mais investimentos no país. Esse mesmo pleito era defendido por seu antecessor no BNDES, o economista Carlos Lessa.
Além de divergir da política monetária, Mantega se mostrou também contrário a fazer um superávit fiscal maior do que a meta, comprimindo gastos do governo com investimentos, prática adotada pelo Tesouro. Quando ministro do Planejamento em 2003 e 2004, Mantega já se preocupava com a condução da política monetária. Convidou sete economistas de fora do governo para debater o tema e analisar as atas do Copom.
De 1993 a 2002, Mantega foi o principal assessor econômico de Luiz Inácio Lula da Silva. Mantega foi apresentado a Lula por Paul Singer, de quem foi assessor na Secretaria de Planejamento na gestão Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo (89-92). Nascido em Gênova (Itália), aos dois anos, veio para o Brasil. Formou-se em economia pela USP e fez doutorado em sociologia. (Pedro Soares/Folhapress)

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