A incapacidade de segurar seus deputados em Brasília colocou o governo ontem em guerra com a oposição e poderá trazer complicações à reforma previdenciária. Por causa da falta de quórum na reunião da comissão especial da Câmara, o presidente, deputado José Lourenço (PFL-BA), armou uma batalha com deputados do PT e PC do B para garantir que o parecer do relator, apresentado ontem, seja votado na próxima quarta-feira. A esquerda gritou e esperneou, acusou Lourenço de atropelar o regimento da Câmara e avisou que vai exigir sua destituição e a anulação da sessão. A votação do parecer do deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP) foi marcada para a quarta-feira, mas o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), terá antes de resolver a briga. O parecer repete na íntegra o subtitutivo aprovado pelo Senado.
Depois de passar toda a noite de véspera acordado, analisando as 76 emendas entregues pelos partidos e preparando seu relatório, Arnaldo Madeira cumpriu a promessa de apresentá-lo na sessão de ontem. O presidente da comissão também passou boa parte da noite de olho aberto, controlando os deputados da base governista que integram a comissão. Teve de fazer substituições pela madrugada.
Ontem, antes das 9h30, já havia quórum para abrir a sessão. Madeira começou a ler seu relatório de 70 páginas e, quando estava na 23º, o deputado Messias Góes (PFL-SE) pediu que a leitura fosse interrompida e a sessão encerrada - uma estratégia governista que provocou a confusão. Também com dois requerimentos na Mesa, a oposição queria o adiamento da sessão. Esperava pedir verificação de quórum assim que os requerimentos fossem votados. Como quase todos os deputados governistas já tinham ido embora, o presidente seria obrigado a encerrar a sessão por falta de número suficiente para votar os requerimentos.
Estas eram manobras regimentais da oposição para obstruir o andamento da sessão e impedir que o parecer de Madeira fosse votado já na próxima quarta-feira. Sem que os próprios assessores parlamentares pudessem perceber direito, José Lourenço colocou os requerimentos em votação, não concedeu verificação do quórum, aceitou os pedidos de vistas dos governistas, encerrou a sessão e convocou outra para a quarta, tudo num piscar de olhos.
‘‘A sessão é nula, nem na comissão da reeleição houve essa violência’’, esbravejou o deputado Humberto Costa (PT-PE). ‘‘O senhor não pode ser presidente da comissão, o senhor é um capacho! Capacho!’’, gritava a deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ), avisando que vai pedir a destituição de Lourenço do cargo. ‘‘Ninguém pode romper o regimento assim e ficar impune’’, cobrava ela. Furioso, Humberto Costa rasgou seu exemplar de regimento. De celular em punho, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) ligou para o secretário-geral da Mesa, Mozart Viana: ‘‘Mozart, o senhor tem de vir aqui, se for preciso eu vou dar porrada aqui.’’
Enquanto a oposição xingava e ameaçava, José Lourenço deu as costas para todos e deixou o plenário da comissão, impassível. ‘‘Eu sabia que a oposição não ia aceitar passivamente; como são minoritários, eles recorrem à ação política para chamar a atenção da imprensa’’, defendeu-se Lourenço. O relator Madeira admitiu que se os partidos governistas garantissem quórum, a confusão não teria existido. ‘‘Os seis deputados do PSDB estavam aqui e ainda tinha um reserva, o Nárcio Rodrigues’’, disse.

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