Manifestantes vaiam Lerner em Londrina
A curta passagem do governador Jaime Lerner (PFL) ontem em Londrina, depois de um ano sem visitar a cidade, foi marcada por manifestações, vaias, protestos e agressões. Lerner desembarcou no aeroporto com uma hora de atraso a chegada estava prevista para às 11h30 e a inauguração da reforma do Colégio Estadual Marcelino Champagnat, motivo da visita, não aconteceu por causa do tumulto.
Depois de ficar um ano sem pôr os pés em Londrina, Lerner ficou na cidade por pouquíssimo tempo uma hora. Do aeroporto, o governador seguiu direto para o colégio e, para evitar as manifestações de professores e esposas de policiais militares concentrados na frente e no pátio da escola, entrou pelo portão dos fundos. Ele estava cercado de seguranças e de secretários do Estado, como Alcyone Saliba (Educação), Rafael Greca (Comunicação) e Mário Fisher (Integração Regional).
Lerner se trancou em uma das salas do colégio para atender a imprensa. Do lado de fora, no pátio onde estava tudo preparado para a cerimônia de inauguração, os manifestantes não pouparam gritos e frases de protestos. Quem quer ser presidente entra e sai pela porta da frente, diziam, numa alusão às pretensões políticas de Lerner de se candidatar à Presidência. Por favor, fechem a porta, insistiu Lerner, irritado com os protestos.
Durante a coletiva, Lerner justificou sua longa ausência de Londrina dizendo que o ano de 2000 foi um período eleitoral. Assim, segundo ele, não seria possível anunciar nem inaugurar obras. Questionado se a ausência não teria ocorrido por causa das vaias que recebeu no Estádio do Café, durante o Torneio Pré-Olímpico de Futebol, ele desconversou: As vaias com certeza eram para o (Wanderley) Luxemburgo ex-técnico da Seleção Brasileira.
O governador respondeu sobre vários assuntos propostos pelos jornalistas, pendentes exatamente pelo longo período em que não visitou a cidade. Lerner se exaltou com a insistência sobre as denúncias de corrupção na Prefeitura de Londrina os recursos teriam sido desviados para as campanhas eleitorais.
Irritado, Lerner disse que não há nenhuma ligação entre as campanhas municipal e estadual. Responde judicialmente quem disser que houve essa relação, ameaçou. Segundo Lerner, o caso de Londrina está sub judice e por isso se negou a comentá-lo.
Neste momento, o deputado estadual Antônio Carlos Belinati (sem partido), que estava na mesa das autoridades, retirou-se do local. Antônio Carlos, filho do ex-prefeito Antonio Belinati (ex-PFL e atualmente sem partido) está sendo investigado pelo Ministério Público, acusado de ter se beneficiado com os desvios da prefeitura.
Durante a entrevista, Lerner e o prefeito de Londrina, Nedson Micheleti (PT), assinaram ordem de serviços para a construção de mais duas escolas estaduais na cidade. Pela terceira vez, Nedson convidou o governador a fazer uma visita a Londrina para discutir uma longa agenda, como emendas no orçamento e melhoria das vilas rurais. Lerner confirmou que virá, mas não marcou data. Não tem como tratar de questões de agenda agora, justificou.
Após a coletiva, quando deveria acontecer a inauguração oficial, o governador deixou a sala protegido por um forte esquema de segurança, mas mesmo assim foi cercado pelos manifestantes.
Lerner cruzou o corredor central passando pelo salão nobre, onde parte dos manifestantes não pôde entrar e deixou a escola pelo mesmo portão que entrou, sem ao menos acenar para as pessoas que estavam no local onde aconteceria o descerramento da fita de inauguração. Ele ainda tentou entrar na sala do laboratório de informática, mas deu de cara com uma porta trancada. Depois, entrou no carro que o aguardava e partiu para o aeroporto.
Quando o governador percorria o corredor da escola, integrantes da comitiva agrediram o presidente da APP-Sindicato, Luís Martins, e uma integrante da Associação de Esposas de Policiais Militares. A integrante da associação, que preferiu não se identificar, exibia o cartaz que foi arrancado de sua mão por um dos assessores do governador. Ela recebeu ainda um aperto no antebraço e um grito para que parasse com o manifesto.
A esposa do PM disse que o grupo queria, pacificamente, cobrar do governador o pagamento de uma gratificação especial para a Polícia Militar prometida para este mês. Eu pretendia apenas mostrar o cartaz para o governador, afirmou.
O presidente da APP julgou que houve excessos por parte da segurança do governador. A entidade também cobrava o cumprimento de acordos feitos por Lerner e até agora não cumpridos. Entre eles, a implantação da hora-atividade para custear estudos e a preparação das aulas, que deveria ser de 25% das horas-aulas, mas o governador anunciou apenas 10%. A reforma do colégio é merecida, mas a educação não depende apenas de belas fachadas, ironizou.
Os protestos dos grupos presentes à inauguração, segundo o governador, não incomodaram. Eles mostram que somos uma sociedade de conflitos, e isso me deixa feliz. A passividade indicaria um governo de ditadura. Apesar disso, enquanto passava pelos manifestantes, reclamou que isso não é um processo democrático.
O governador disse ainda que a resolução 3.651/2000 que possibilita a diminuição do quadro administrativo e até fechamento de escolas com menos de 160 alunos, é necessária para racionalizar a educação. Com isso seria possível o início imediato do pagamento da hora-atividade dos professores, dentro do que determina as diretrizes da Secretaria de Educação, declarou.
O fechamento de escolas com poucos alunos, segundo Lerner, não irá provocar a superlotação de outras escolas e salas de aula. Segundo ele a transferência dos alunos será organizada de forma que não se perca a qualidade do ensino. Sou um defensor da escola pública e não aceito baixa qualidade.





