Curitiba - Manifestantes invadiram ontem a Assembleia Legislativa (AL) do Paraná para cobrar o afastamento do presidente da Casa, Nelson Justus (DEM), do comando do parlamento até que as irregularidades denunciadas pela imprensa sejam investigadas. Representantes de estudantes, de sindicatos e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se reuniram por volta das 11 horas em frente à AL e a invasão ocorreu em seguida: um acesso alternativo para a entrada de carros no estacionamento da AL foi derrubado pelos manifestantes, que em seguida ocuparam os corredores da Casa.
É a terceira manifestação do tipo desde meados de março, quando novas denúncias foram levantadas pela imprensa contra a AL. Ontem, contudo, os manifestantes entraram pela primeira vez no prédio, e estavam em maior número: nas outras duas manifestações o número de pessoas não passou de 100; ontem a CUT chegou a anunciar a participação de 1.200 pessoas.
Com gritos de protesto, os manifestantes ficaram por cerca de 20 minutos dentro do prédio e depois se retiraram cantando o Hino Nacional. Eles não chegaram a entrar no plenário, que fica de portas fechadas quando não há sessão na Casa. Funcionários que trabalhavam nos gabinetes dos parlamentares saíram para assistir ao protesto. Outros preferiram fechar as portas. Às 14h30, quando a sessão plenária começou e os deputados apareceram no local, já não havia nenhum manifestante.
Logo no início da sessão, Nelson Justus se manifestou no plenário sobre o protesto, saindo em defesa da sua própria permanência no comando da Casa e criticando ''alguns exageros'' que teriam sido cometidos por manifestantes. Ele informou que enviou um ofício ao governador do Paraná, Orlando Pessuti (PMDB), e ao secretário de Estado da Segurança Pública (Sesp), Aramis Linhares Serpa, pedindo apoio: ''Não podemos concordar com falta de proteção ao Legislativo'', declarou Justus, que ultimamente tem sido acompanhado por um grupo de seguranças.
Justus defendeu sua gestão à frente da mesa executiva da AL e reforçou que está colaborando com as investigações: ''Falta muito pouco para atingirmos o grau de transparência que esperamos. Não é um Legislativo acéfalo que vai conseguir concluir o trabalho que iniciamos. Todos nós seremos julgados pela população daqui alguns meses e não cabe a ninguém antecipar esse julgamento''. Em outro trecho do seu discurso, Justus admite que enfrenta ''o momento mais difícil'' dos seus 25 anos de vida pública.
Para Justus, o processo de transparência do Legislativo vem desde 2007, quando ele assumiu a gestão na Casa: ''Nós não podemos errar um milímetro porque daí todo o trabalho que fizemos vai por água abaixo''. Ele sustenta que a Casa está sendo ''passada a limpo'', em referência ao processo de recadastramento e reenquadramento dos funcionários em curso até sexta-feira. ''Erros não foram inventados por um ou dois. Estamos corrigindo a história da Casa'', declarou ele.
Durante o discurso, Justus aproveitou ainda para defender dois assessores dele, Luiz Alexandre Barbosa e Sérgio Monteiro, que, juntos, teriam contratado mais de 30 parentes para cargos na AL, incluindo pessoas que não trabalhavam efetivamente lá, como mostrou uma denúncia da RPCTV e do jornal Gazeta do Povo. Ele disse que exonerou funcionários, mas que já considera sua medida uma ''tremenda injustiça com alguns deles'': ''São companheiros que lutam comigo, sábado, domingo, sem horário. E de repente são escrachados''.
Os manifestantes protocolaram três requerimentos ontem: na AL, no Ministério Público (MP) do Estado, um dos responsáveis pela investigação, e no Tribunal de Contas do Estado. De acordo com o presidente da CUT, Roni Anderson Barbosa, o requerimento enviado ao MP cobra agilidade na apuração das denúncias e a realização de uma audiência pública para que a sociedade possa acompanhar o andamento das investigações.
Ontem, o MP distribuiu uma nota pública sobre o andamento das investigações. O MP abriu quatro frentes de investigação, que envolvem 17 promotores e procuradores de Justiça. A nota pública informa ainda que, ontem, a Promotoria de Proteção ao Patrimônio Público ouviu três servidores da Casa e, anteontem, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) ouviu três, incluindo o diretor geral afastado da AL, Abib Miguel, que já havia sido convocado anteriormente pela Promotoria do Patrimônio Público.

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