Manifestantes dormem em sindicatos, hotéis e na casa de parentes
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segunda-feira, 08 de maio de 2017
Amanda Audi<br>Reportagem Local 

Curitiba - Apoiadores da Lava Jato e do ex-presidente Lula tiveram que mudar os planos de acampar em Curitiba enquanto esperam o depoimento do petista ao juiz Sérgio Moro, que acontece nesta quarta-feira (10). Centenas de manifestantes de ambos os lados já chegaram à capital. Com a decisão da juíza Diele Denardin Zydek, da 5ª Vara da Fazenda Pública, que proíbe acampamentos em ruas e praças da cidade, eles tiveram que se acomodar em sindicatos (no caso dos apoiadores de Lula), hotéis e na casa de parentes.
Cerca de 10 mil pessoas devem participar de atos pró-Lula ligados à Frente Brasil Popular. Grupos de apoio à Lava Jato não divulgaram estimativa, mas esperam milhares de pessoas nas ruas - apesar do pedido de Moro em vídeo divulgado pelo próprio magistrado nas redes sociais - para que as pessoas fiquem em casa nesse dia para evitar confusão.
Além de proibir acampamentos, a decisão liminar também limita o acesso de pedestres e veículos à área do prédio da Justiça Federal, no bairro Ahú. A liminar atende à pedido da Prefeitura de Curitiba. A proibição vale das 23h de hoje até às 23h de quarta-feira. Em caso de montagem de estruturas e acampamentos na capital, haverá multa diária de R$ 50 mil.
A Defensoria Pública do Paraná entrou com um recurso contra a decisão no Tribunal de Justiça (TJ), argumentando que proibir os acampamentos seria cerceamento à liberdade de expressão e manifestação. O TJ negou o pedido durante a tarde. A decisão do juiz Francisco Jorge diz que deve "preponderar o interesse coletivo (
) em face da livre circulação de pessoas e do acesso ao local onde será o interrogatório".
No início da noite, a Defensoria protocolou um habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Até o fechamento desta edição ainda não havia uma decisão sobre a liminar.

ALOJAMENTO
"Ainda não desistimos. Estamos em negociação com os órgãos competentes para encontrar um lugar para o acampamento, mas não tem nada definido", disse Regina Cruz, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Paraná, que organiza a vinda de apoiadores de Lula.
Segundo ela, muitas pessoas já chegaram e precisam de acomodação. A saída foi encaminhar os visitantes para galpões de sindicatos parceiros.
Já o acampamento de defensores da Lava Jato, erguido em frente ao prédio da Justiça Federal desde 2014, estava sendo desmontado na tarde de ontem. No local, cerca de 30 pessoas se revezavam para passar o dia distribuindo materiais de apoio à operação e acompanhando o dia a dia do prédio de onde Moro despacha.
Com um bandeira do Brasil nas costas, um dos ativistas tirava tábuas de madeira da construção improvisada. A aposentada Sueli Claro de Oliveira, que se reveza com os colegas no local há mais de um ano, lamentava o fim do acampamento. "É a primeira vez que vai ser desmontado. É triste", disse.
A "coordenadora" do acampamento, a advogada Paula Milani, disse que a estrutura provavelmente será reerguida após o fim do prazo determinada pela juíza (às 23h de quarta-feira). "Agora estamos concentrados em mandar boas energias para Moro. Depois vamos para fazer um ato bonito em defesa da operação no dia 10, no Centro Cívico. Só depois vamos decidir se montamos de novo ou não", afirmou.
Paula diz que centenas de manifestantes chegarão em Curitiba para o ato, mas que não deve haver problemas com acomodação. "É diferente de protesto do PT, que você freta um ônibus e vem todo mundo. A gente é organizado", provoca.
Os integrantes do acampamento dizem que os visitantes deverão ficar na casa de parentes, em hotéis ou fazer bate-volta no mesmo dia.
O esquema de segurança organizado pela Secretaria de Segurança Pública do Paraná separou os manifestantes em áreas distantes da cidade no dia 10.
Apoiadores da Lava Jato poderão se manifestar na região do Centro Cívico. Defensores de Lula, na região da Boca Maldita. Já o prédio da Justiça Federal, onde ocorrerá a audiência, será fechado, com bloqueios realizados pelas polícias Federal e Militar em todos o perímetro para impedir o acesso de carros e pedestres.
Moradores e comerciantes temem possível confronto
Curitiba - A dois dias da audiência em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva será ouvido em Curitiba, os arredores da Justiça Federal fervia de movimentação e apreensão nesta segunda-feira (8). A maior parte do comércio da região vai fechar as portas nesta quarta-feira (10). Além da proibição da circulação de carros e pessoas não credenciadas pela Polícia Militar em um perímetro que passa por 12 ruas, também há o medo de baderna e confusão por parte de grupos que apoiam ou são contra o ex-presidente.
Duas academias de ginástica próximas do prédio da Justiça Federal vão fechar no dia do depoimento. A maioria dos frequentadores e clientes é de funcionários da Justiça, que não terá expediente na data por questão de segurança. Lojas da região também devem abrir em horário reduzido ou nem mesmo vão abrir.
"Dá medo de quebra-quebra, a gente não sabe quem são as pessoas que vão estar aqui", comenta a atendente de uma loja que preferiu não ser identificada.
Maria Luísa da Silva, moradora dos fundos do prédio da Justiça Federal, foi uma das pouco mais de 6 mil pessoas credenciadas pela Polícia Militar (PM) a circular na região no dia 10 (entre moradores e trabalhadores). Ela foi aconselhada a andar com o RG na mão durante todo o dia. "É a primeira vez que me sinto insegura assim", diz ela.
A maioria dos moradores diz que não sabe o que esperar da audiência, mesmo com o interdito que proíbe a circulação de pessoas pelas proximidades.
"Sinto que estou correndo risco, que vai haver uma guerra. Nunca foi assim antes, mesmo quando prenderam José Dirceu, Sérgio Cabral, nunca chegou perto disso que está se formando só com uma audiência do Lula", afirma Maria Luísa.
Além disso, o bloqueio também causa a alteração do trajeto de 10 linhas de ônibus que passam pelo local alterado no dia da audiência. Os desvios afetam as linhas ligeirinhos Barreirinha-Guadalupe e Cabral Osório, Bom Retiro-Cabral, Barreirinha, Paineira, Santa Gema, Fernando de Noronha, Laranjeira, Ahú-Los Angeles e Reforço Anita.
Por outro lado, tem gente comemorando a possibilidade de confusão. "O Lula tá vindo pra pagar meus boletos", ri Elenice Accordi, dona de uma banca na esquina do prédio da Justiça há 27 anos.
Elenice conta que representantes de marcas de cigarro passaram por sua banca para vender consignado, em busca do movimento alto na data. Ela lembra que em rebeliões no antigo presídio do Ahú (que funcionava no local), eram épocas de grande movimento. "Pra mim, quanto mais fervo, melhor", brinca ela. (A.A.)


