Manifestação acaba em pancadaria
A visita dos chefes de Estado dos países-membros Mercosul ao Museu de Belas Artes, no centro do Rio, ontem à tarde, foi marcada por muita confusão do lado de fora do prédio. Manifestantes vaiaram e gritaram palavras de ordem contra o presidente Fernando Henrique Cardoso e entraram em confronto com policiais militares e guardas municipais.
Bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral foram lançadas e, revoltados, os manifestantes, a maioria estudantes, revidaram, atirando pedras portuguesas arracandas do chão. Os policiais também agrediram jornalistas. Um grupo de cinco manifestantes foi preso, duas pessoas ficaram feridas e uma menina de 14 anos passou mal.
Para fazer a segurança externa do museu, foram convocados 400 PMs e cem guardas municipais. Por três vezes, a Rio Branco, uma das principais avenidas do centro foi fechada pelo pelotão do Batalhão de Choque da PM, embora o protesto tenha reunido apenas 60 manifestantes, segundo a polícia. Não temos nem sequer o direito de protestar; parece que ainda estamos vivendo sob o AI-5 (Ato Institucional 5), criticou a advogada Maria Marques Santos, indignada com atuação da polícia.
Maria e outros transeuntes que passavam pelo local se juntaram aos manifestantes - a maioria, estudantes de universidades públicas e militantes do PSTU - para vaiar Fernando Henrique na saída do museu. O presidente e os colegas do Mercosul, do Chile e da Bolívia chegaram ao Belas Artes às 12h15 e deixaram o local às 16 horas.
O primeiro confronto começou às 12h40. Os manifestantes fecharam por dois minutos a passagem do trânsito pela Rio Branco, que estava sendo feita em apenas três das seis faixas de rolamento da avenida. Por medida de segurança, a área em frente do museu foi parcialmente isolada. Às 14h45, a tensão aumentou. Um pelotão do Batalhão de Choque foi convocado para expulsar um pequeno grupo de manifestantes na lateral do Belas Artes, na Rua Araújo Porto Alegre, que também foi interditada.
Eles gritavam palavras de ordem contra o presidente - Abaixo a ditadura!, FHC, vagabundo é você e Ê, ê, ê, Fernando Henrique é igual ao Pinochet, entre outras - quando foram atingidos por duas bombas de efeito moral. Na confusão, os manifestantes correram para a Praça da Cinelândia, próximo ao museu, mas os policiais, ajudados por guardas municipais, os seguiram.
Os estudantes Bruno Jorge Oliveira Pedrosa, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Leandro Cruz, presidente da União da Juventude Socialista (UJS), Matheus de Aragão, de 17 anos, também da UJS, e Marx Pereira Rocha, da Universidade do Rio de Janeiro (UniRio) foram presos. Um quinto estudante, identificado apenas como Flávio também foi detido.
O vereador Fernando William (PDT) tentou impedir, em vão, que o grupo fosse levado para a 1ª Delegacia Policial (DP), na Praça Mauá, no centro, onde foram liberados no fim da tarde. A Guarda Municipal foi mais violenta que a própria polícia, desrespeitando flagrantemente o seu dever constitucional, que é apenas cuidar de prédios públicos, e não de bater em estudantes, criticou o vereador.
O último conflito aconteceu no fim da tarde. A confusão começou quando policiais agrediram uma equipe da Rede Globo de Televisão, que tentava filmar a saída dos presidentes do museu, sob vaias dos manifestantes. A PM, então, revidou com uma bomba de gás lacrimogêneo, que estourou na barriga do aposentado Edgar de Almeida, de 86 anos.
Além do aposentado, uma outra pessoa, não-identificada, foi ferida com golpes de cassetetes distribuídos pelos policiais. A estudante Lívia Chaves Vasco, de 14 anos, que passava pelo local na hora da confusão, acompanhada pela mãe, teve uma crise nervosa e foi atendida num bar próximo. A situação no centro só se normalizou às 16h30.Vanderlei de Almeida/France PresseEstiloEstudantes em confronto com policiais: segurança de FHC foi posta à prova e provocada a pedras, gritos e palavrõesMurilo Fiuza de Melo
Agência Estado





