O prefeito de São Paulo, Paulo Maluf (PPB), deu início à sua campanha para a Presidência da República ao falar ontem aos integrantes da comissão especial que examina a reeleição. Maluf lançou sua plataforma política, com destaque para o desenvolvimento econômico, a geração de empregos e o equilíbrio da balança comercial. Ele atacou o presidente Fernando Henrique Cardoso e o acusou de ser refém da reeleição.
Por quatro vezes Maluf foi questionado e se recusou a responder sobre os motivos que o levaram a mudar de opinião tão rápido, pois quando ainda havia tempo de se candidatar à própria reeleição para a Prefeitura de São Paulo era favorável à tese. O prefeito preferiu desviar o assunto para dizer que o governo não faz hoje absolutamente nada. ‘‘Nada se faz neste País porque o que se deseja é a reeleição.’’ Ele afirmou que todas as reformas estão paradas porque o governo só quer uma: reeleger Fernando Henrique.
Maluf e o professor da Universidade de Brasília Paulo Kramer foram os primeiros convidados a participar das audiências públicas da comissão especial que examina a emenda da reeleição. Kramer se disse favorável à reeleição já; Maluf acha que a reeleição só deve valer para o sucessor de Fernando Henrique, cargo ao qual é candidato. Hoje será a vez do ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes, filiado ao PSDB e contrário à reeleição de Fernando Henrique, e do ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), José Roberto Batocchio.
Ao mesmo tempo em que defendeu o crescimento econômico do Brasil, Maluf atacou o que ele considera os principais problemas do Brasil atualmente: ‘‘desemprego preocupante, juros elevados, câmbio atrasado, exportações preguiçosas, importações crescentes e deslocadoras da produção nacional, elevação dos déficits comerciais e poupança e investimentos insuficientes’’.
Para dar um jeito nisto, segundo a plataforma política do prefeito paulistano, serão necessárias soluções urgentes para o Nordeste, a ponto de transformar a região em uma ‘‘Califórnia brasileira’’; e ampliar a globalização da economia sem medo, garantindo a contrapartida de empregos para brasileiros e não para estrangeiros.
O prefeito de São Paulo pregou ainda aplicação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) em moradia, sem desvios; gerar um mínimo de 30% para investimentos em infra-estrutura social e econômica, que poderão criar 800 mil empregos; repensar a necessidade de o Brasil ter uma saída para o Pacífico; reequipar os portos; incentivar a agricultura e assentar os sem-terra.
Maluf assumiu ainda uma bandeira das oposições: o ataque ao Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer). ‘‘O Executivo legisla por Medidas Provisórias’’, afirmou. ‘‘MPs da mais alta importância como, por exemplo, a do Proer, que liberou dezenas de bilhões de dólares para bancos falidos que foram assaltados, não por ladrões com metralhadoras nas portas das agências, mas por seus proprietários’’.
Depois, o prefeito criticou o governo por causa da crise da saúde e da demissão do ex-ministro Adib Jatene. ‘‘Enquanto o eminente cientista Adib Jatene se demite por cerca de R$ 1,6 bilhão que lhe são negados, mais de US$ 50 bilhões são dados a banqueiros ladrões’’. Tudo isto, segundo Maluf, em um total desconhecimento da existência do Congresso.
Aos deputados que o ouviam, Maluf pregou a independência do Legislativo frente ao Executivo: ‘‘Vamos dizer não à submissão, dizendo não às Medidas Provisórias, dizendo não à desconsideração com que hoje esse Executivo trata o Legislativo’’. Maluf conclamou todos a dizer sim à ética, à moralidade e à autodeterminação do Congresso Nacional.
Nas críticas que fez à reeleição de Fernando Henrique, o prefeito procurou comprometer o PSDB e o PFL, partidos que defendem a reeleição. Ele lembrou que durante a revisão constitucional de 1993/94 a senadora Eva Blay (PSDB), suplente do então senador Fernando Henrique, votou contra a reeleição. Ele citou outros nomes que votaram contra a reeleição e que hoje, afirmou, trabalham a favor.
São estes: os ex-senadores e hoje governadores de São Paulo, Mário Covas (PSDB), do Pará, Almir Gabriel, e de Sergipe, Albano Franco (PSDB), o prefeito eleito de Recife, Roberto Magalhães (PFL-PE), o ex-senador e hoje vice-presidente Marco Maciel (PFL), o deputado José Múcio Monteiro (PFL-PE), ex-relator da comissão especial da reeleição, o líder do PFL, Inocêncio Oliveira (PE), o vice-líder do PMDB, Geddel Vieira Lima (BA), o senador José Serra e o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ).
Paulo Maluf aproveitou o contato com os deputados para lhes fazer uma advertência. Segundo ele, se o Congresso aprovar a reeleição sem desincompatibilização, os deputados e senadores podem se preparar para o desemprego. Maluf disse que os secretários de Estado, que não mais precisarão deixar os cargos, vão tomar os lugares dos deputados e senadores.

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