O ministro da Fazenda, Pedro Malan, afirmou ontem que os responsáveis pela gravação e divulgação das conversas telefônicas que levaram três integrantes do primeiro escalão do governo a pedir demissão são ‘‘criminosos, (que) têm que ser buscados e identificados’’. ‘‘Tem que ser entendida a motivação, a razão que os levou a cometer esse ato criminoso e depois a utilizar politicamente o produto do ato criminoso’’, disse. Quanto ao conteúdo das conversas ilegalmente gravadas, ele disse que, ‘‘deixando de lado o uso de certas expressões e palavras, não viu ‘‘nada de criticável’’. O ministro evitou comentar o que chamou de ‘‘questões pessoais de foro íntimo dos três envolvidos, que foram submetidos ao que consideraram inaceitável em termos de invasão de privacidade’’.
Malan, que encerrou ontem sua visita dez dias aos principais centros financeiros do mundo, para explicar o programa econômico do governo brasileiro e restaurar a confiança dos investidores no País, não escondeu sua contrariedade ao falar sobre o episódio, embora não tenha atrapalhado sua missão junto aos banqueiros internacionais. O ministro da Fazenda disse que retorna a Brasília ‘‘cautelosamente otimista’’ com a resposta que ouviu dos bancos em Nova York, Frankfurt, Paris. Ele esperava ter bons resultados na palestra que faria no final da tarde na sede do Banco da Inglaterra para executivos ingleses.
Malan reiterou que ouviu de ‘‘praticamente todos’’ os banqueiros com quem esteve nos últimos dias manifestações de disposição de manter suas linhas de crédito ao Brasil e de aumentá-las à medida em que o País avançar na execução do programa fiscal. Ele esclareceu que o Banco Central passará a fazer o monitoramento semanal dessas linhas, em vez de a cada trimestre, e manterá os BCs dos países do G-7 informados, para que eles, agindo dentro de seus limites, possam ajudar a manter os bancos de seus países interessados no Brasil.
‘‘Uma das provas de que a confiança externa no Brasil continua é que ninguém anunciou mudanças de planos de investimentos no País em 1999’’, ano em que o governo conta com a entrada de aproximadamente US$ 20 bilhões. ‘‘Na quarta-feira, chega a Brasília o primeiro-ministro da Holanda, com uma comitiva de cerca de 30 empresários interessados em buscar novas oportunidades de investimento no País’’, disse.
Sem dolo Até seu encontro de ontem com os banqueiros ingleses, que foi fechado para a imprensa, Malan não havia sido perguntado uma única vez sobre o caso do grampo. O ‘‘Financial Times’’, o único jornal inglês que noticiou as demissões dos altos funcionários com algum destaque, ontem deu um tom positivo na história, reproduzindo afirmações de executivos financeiros segundo os quais a saída dos irmãos Mendonça de Barros e de Lara Resende removeu os problemas que o episódio poderia representar para a aprovação das medidas do plano fiscal do governo no Congresso e para a continuação do programa de privatização.
Mesmo assim, o ministro reconheceu que o caso, ‘‘obviamente, é muito ruim’’ para o País. ‘‘É ruim, em primeiro lugar, porque tem por base uma atitude criminosa. É ruim também porque perderam o governo e o País ao perder colaboradores da qualidade, do calibre, da competência e do profissionalismo das pessoas envolvidas’’, disse Malan. ‘‘Na minha opinião, nada do que apareceu indica comportamento doloso da parte deles.’’
O ministro procurou relevar as partes dos diálogos gravados entre Luiz Carlos, José Roberto Mendonça de Barros e André Lara Resende, que suscitaram suspeitas, provocaram a gritaria no Congresso e levaram os três a pedir demissão. ‘‘É natural que aqueles que são responsáveis pelo programa de privatização procurem assegurar duas coisas: primeiro, que haja concorrência, que haja competição num processo que é de interesse do patrimônio público.’’ Malan disse que é normal também que haja ‘‘a preocupação que empresas que participam dos consórcios tenham experiência operacional na gestão da atividade que está sendo privatizada. Isso valeu para as ferrovias, as rodovias, o setor elétrico e as telecomunicações não são exceção’’.
Numa menção indireta à reação que a revelação das conversas gravadas provocou na imprensa e no Congresso, Malan disse que ‘‘não existe possibilidade de um setor público, em qualquer país do mundo, funcionar, gravando-se as conversas telefônicas dos servidores públicos’’. Perguntado se a falha maior não teria ocorrido na própria montagem da concorrência, que acabou necessitando o tipo de intervenção informal - e sem resultado - revelada pelas gravações das conversas entre o ex-ministro da Fazenda e o presidente do BNDES, que deu margem às suspeitas, Malan indicou que concordava. ‘‘Se eu estivesse redigindo o edital, eu talvez tivesse indicado uma preferência pela participação de um operador da atividade em questão no consórcio’’, disso. ‘‘Mas isso é apenas uma opinião pessoal que, a essa altura, não é muito proveitosa’’, afirmou Malan.

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