O delegado do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Alan Flore, tomou ontem o depoimento de quatro vereadores de Londrina pelo inquérito que investiga a doação de uma área pública ao empresário Marcelo Caldarelli, no final de 2005. Foram ouvidos o líder do Executivo, Gláudio Renato de Lima, o presidente da Casa, Sidney de Souza (PTB), o líder do PMDB, Jamil Janene, e o corregedor, Luiz Carlos Tamarozzi (PTB).
O inquérito conduzido pelo Gaeco investiga se houve pagamento de propina a vereadores, no final de 2005, para que Caldarelli recebesse uma área de 3.200 m2 às margens do Lago Igapó 1, por meio do projeto de lei aprovado em apenas quatro dias e assinado pelos vereadores afastados Osvaldo Bergamin (PMDB) e Renato Araújo (PP), o qual já depôs como investigado. Um dos documentos analisados nas investigações é uma lista com os nomes de nove vereadores, com números ao lado de casa um e, ao final, a mensagem ''deu 18.500''. Araújo chegou a admitir em mais de uma entrevista, mês passado, que a letra da lista seria dele - mas sem os números. No dia do depoimento, no último dia 6, ele negou a autoria e ainda se recusou a fornecer material para realização de exame grafotécnico, o que acabou sendo coletado à revelia, pelo Gaeco, na própria Câmara.
Ontem, os quatro vereadores que prestaram depoimento fizeram questão de destacar que teriam procurado o MP espontaneamente, uma vez que, na lista admitida anteriormente por Araújo - na ocasião, o vereador argumentara que ela computaria os votos favoráveis ao projeto -, eles poderiam figurar entre os nove nomes.
''Fui lá espontaneamente, pois sei que o MP está preocupado em investigar, e não em fazer pré-julgamento. Perguntaram para mim sobre o Caldarelli, e disse que não tenho contato com ele'', afirmou Tamarozzi. ''Fui por livre e espontânea vontade, falei sobre como tive conhecimento da tal lista, pois isso virou comentário aqui na Câmara, e confirmei que ouvimos do Renato (Araújo) que a letra era dele, mas sem os números'', disse Gláudio.
Jamil declarou à imprensa, no local, que está ''à disposição da Justiça'' e que ''deixo à disposição do MP meus sigilos bancário, fiscal e telefônico''. O presidente da Câmara alegou que a ''visita'' ao delegado, que ele destacou não ter sido a primeira, estaria relacionada à ''pressa que temos na avaliação das denúncias, pois a cidade nos cobra respostas e queremos, junto com o MP, responsabilizar os culpados''.
Tanto o presidente quanto o corregedor admitiram ter encaminhado cópias de outras leis aprovadas na Casa ao Gaeco - conforme Tamarozzi, seriam quatro, ao todo, entre leis de doação de terreno e mudança de zoneamento que ele não quis especificar. A FOLHA apurou, contudo, que uma dessas leis é a 6.184, de 14 de junho de 1995, que desafetou de uso comum do povo um terreno de mais de 2.425 m2, no Jardim Bela Suíça - ao lado do terreno doado em 2005 a Caldarelli - para posterior permuta por outras áreas de propriedade particular, também do empresário, com a então finalidade de alargar a Rua Humaitá sem que fosse necessário fazer desapropriações. A justificativa da lei era assinada pelo então prefeito, Luiz Eduardo Cheida, ao então presidente do Legislativo, Célio Guergoletto.
O delegado que preside o inquérito não comentou as demais leis investigadas. Sobre os depoimentos de ontem, Flore resumiu: ''Conversei com o presidente da Câmara sobre a necessidade de ouvir os quatro, eles se prontificaram a vir falar e, assim, formalizamos os depoimentos''. Questionado se mais vereadores serão convidados ou intimados, o delegado sinalizou: ''Não podemos dizer nem que sim, nem que não''.

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