Maioria não lembra em quem votou
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domingo, 05 de fevereiro de 2012
Loriane Comeli <br> Reportagem Local 
Uma pesquisa realizada na região metropolitana de Londrina comprova o que o senso comum já sabia: passado algum tempo, a maioria dos eleitores não se lembra em quem votou. Coordenada pela professora da Faculdade Norte Paranaense (Uninorte) Francisca Vergínio Soares, que é doutora em Ciências Políticas, a pesquisa foi feita em setembro de 2010 (um mês antes das eleições gerais) por 22 alunos que integram um projeto de extenção e ouviu 1500 moradores de Londrina, Cambé, Ibiporã, Sertanópolis e Primeiro de Maio. O objetivo principal era saber se passados quase quatro anos da última votação os eleitores se lembrariam em quem votaram em 2006 para presidente, governador, senador, deputado federal e estadual.
A sondagem demonstrou que o índice de esquecimento abrange praticamente todos os cargos: 72% disseram não se lembrar em quem votaram para senador; 74% se esqueceram o nome do escolhido para deputado federal; e 64% esqueceram em quem votaram para deputado estadual contra 25% que lembravam o nome do candidato. Ao responderem a pergunta sobre o nome escolhido para governador, 52% disseram não se lembrar e apenas 25% tinham na mente o nome escolhido. A lembrança do eleitor é mais viva no cargo de presidente: 63% dos entrevistados se recordavam do voto; 35% esqueceram; e 2% não responderam.
Os dados revelam ainda desconhecimento dos eleitores. A grande maioria disse não saber o papel do Senado Federal ou preferiu não responder a esta questão. O papel do Executivo é um pouco menos nebuloso: 58% disseram conhecer as atribuições deste poder.
Para a professora Francisca, no entanto, tais dados revelam falta de memória e um distanciamento da política, mas não comprovam que o eleitor não sabe votar. ''Eu não comungo com esta tese e com a tese de que cada povo tem o governo que merece'', defendeu. ''O eleitor vota de acordo com o que o sistema está oferecendo, é uma resposta a toda uma política destroçada que a gente tem, onde a corrupção é o ponto central. A falta de memória reflete a percepção do eleitor de que a política é uma coisa distante porque o próprio político não faz nada para tornar a política uma coisa boa.''
A percepção da corrupção e a imagem negativa que o eleitor tem dos políticos aparecem claramente na pesquisa. Dos 1.500 entrevistados, 967 consideram os políticos desonestos; 907, corruptos; 802, usurpadores das verbas públicas; 651, necessários. ''Se a política e os políticos são todas essas coisas, o eleitor desanima e acaba por não se lembrar em quem votou'', avaliou Francisca.
Outra resposta que revela a insatisfação do eleitor é quanto à reforma política. 64% consideram a reforma necessária. Os eleitores querem o fim da impunidade (172 entrevistados), o fim das mordomias (119), que os filhos dos políticos estudem em escolas públicas (101), que os políticos usem o sistema público de saúde (98), que o foro privilegiado deveria ser extinto (65). ''O eleitor percebe que algo não está certo na política. Quer o fim da impunidade porque os políticos têm a certeza da impunidade. Há uma discrepância entre o tratamento para o político que comete crimes e para o cidadão comum na mesma condição. Isso afasta o eleitor da política'', comentou a professora.
Para a professora, mudanças neste quadro caótico e distorcido da política brasileira passam por reformas a serem feitas em parceria entre a classe política e a sociedade civil e por uma nova consciência dos eleitores. ''Os políticos são nossos empregados. O presidente, o governador, o vereador, todos são nossos empregados. Nós que pagamos os salários deles'', resumiu.
Critérios
Embora muitos políticos com ''ficha suja'' tenham sido eleitos em 2010, a maioria do eleitorado disse que, naquele ano, levaria em consideração a vida pregressa do candidato. A pesquisa demonstrou que 59% dos entrevistados disseram considerar este fator. Os entrevistados disseram ainda que o principal critério para escolher um candidato é que ele não esteja envolvido em escândalos políticos. E 1% dos admitiu que votou em determinado candidato porque obteve ''algum tipo de promessa durante a campanha''.
Chama a atenção os meios usados para escolher o cadidato. A forma mais utilizada é a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, seguida de indicação pessoal, da orientação de um partido político e os ''santinhos''. Diante deste caos no sistema político-eleitoral e da diversidade de informações acerca dos políticos, a professora acredita que o eleitor vota com consciência. ''O eleitor constrói o voto à luz de toda essa realidade, diante do caos; eu diria que é até uma construção consciente. É sistema político organizado de uma forma a desorganizar a população.''


