Agência Estado
Apesar do tímido avanço nas negociações para a aproximação comercial entre os blocos do Mercosul e União Européia, a maioria dos líderes participantes da Cimeira, que foi encerrada ontem no Rio, aprovou os resultados do encontro de 48 chefes de Estado e de governo. ‘‘Não conseguimos convencer nossos parceiros a começar mais cedo as negociações formais, mas o acordo que conseguimos é satisfatório, e agora queremos assegurar que seja integralmente respeitado’’, afirmou o ministro das Relações Exteriores da Inglaterra, Robin Cook, referindo-se à criação da área de livre comércio.
Os negociadores preferiram ressaltar as conquistas a criticar as divergências para o fechamento de um acordo. ‘‘Conseguiu-se um entendimento para além do que todos pensávamos’’, disse o primeiro-ministro português, Antonio Guterrez. Portugal teve um papel importante para que a Comissão Européia chegasse ao Brasil com um mandato negociador. ‘‘Foi o compromisso mais avançado que se conseguiu alcançar, que se refletirá na Rodada do Milênio.’’
A despeito das declarações do presidente da França, Jacques Chirac, de que o protecionismo em seu país, especialmente no setor agrícola, seria ‘‘uma lenda’’, a resistência francesa parece ter sido o principal obstáculo à antecipação do acordo. ‘‘Se é lenda ou não, o importante é trabalharmos para que se desmonte o protecionismo nos mercados’’, declarou o primeiro-ministro da Espanha, Jose María Aznar.
O Reino Unido, segundo Cook, também é favorável à abertura do mercado europeu aos produtos latino-americanos. ‘‘Continuaremos (Reino Unido) a ser a principal voz a pedir a reforma da política agrícola da Europa’’, afirmou. ‘‘Mas sabemos que nem todos os países europeus são tão entusiastas quanto à abertura de um mercado livre e que existe uma ansiedade especial naqueles que têm um vasto setor agrícola’’, disse, numa referência velada à França.
O primeiro-ministro italiano, Massimo D’Alema, mostrou-se otimista quanto às consequências da Cimeira para o comércio internacional, mas também criticou veladamente a França, embora não se referisse explicitamente ao vizinho. ‘‘Não quero comentar a posição de ninguém’’, afirmou. ‘‘O que digo é que a Itália é favorável a uma área de livre comércio, é contra a elevação de taxas de importação de produtos agrícolas, e nisso todos ganham.’’ Para D’Alema, é até possível que, numa abertura do mercado italiano a produtos agrícolas, os latino-americanos consigam ser mais competitivos em alguns itens.
Segundo ele, a Cimeira foi uma parte importante da nova arquitetura econômica, fundada na cooperação. A disputa entre EUA e Europa pelo mercado latino-americano foi abordada nas discussões, mas amenizada nas declarações oficiais. ‘‘A concorrência entre a Alca e a UE é boa para evitar a formação de um monopólio comercial’’, disse Aznar.
Guterrez considerou a Cimeira ‘‘um marco histórico nas relações entre a Europa e a América Latina’’ por ter definido uma política pluralista de direitos humanos, uma relação econômica mais justa entre os países e uma linha de ação comum para os crimes transnacionais. Na avaliação de Aznar, o encontro reafirmou o valor da democracia e dos direitos humanos. Já o chanceler da Guatemala, Eduardo Stein, afirmou que faltou uma discussão mais ampla sobre a população indígena. Ele lembrou que existem aproximadamente 7,5 milhões de descendentes indígenas na América Central, sendo que 6 milhões vivem na Guatemala.Chefes de Estado fecham Carta do Rio com 69 pontos e manifestam confiança que futuro pode consolidar Mercosul e UE
Cris Bouroncle/France PresseIdéiasHugo Chavez (Venezuela), FHC e Fidel (Cuba), pouco depois de assinarem a Declaração do Rio, ao término da Primeira Cimeira

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