Arquivo FolhaEx-ministro Maílson da Nóbrega: bomba relógio prestes a explodirO aumento do desemprego é o preço a ser pago para preservar a estabilidade. É o que afirma o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, para quem o grande desafio a ser enfrentado pelo governo este ano é encontrar um meio de evitar que se consolide a expectativa de desvalorização cambial após as eleições. ‘‘Se o governo não desarmar essa bomba relógio, ela explode antes das eleições’’, alerta.
Uma desvalorização cambial agora ou depois terá o mesmo efeito macroeconômico, afirma ainda o ex-ministro. E acrescenta: se for feita após as eleições, vai se constituir num ‘‘estelionato eleitoral’’. Segundo ele, caso essa percepção de que o governo estaria aguardando as eleições para desvalorizar o câmbio se consolide, pode haver fuga de capital, aceleração das importações, adiamento das exportações e de lançamento de papéis no exterior, provocando uma pressão nas reservas que pode levar a uma crise cambial. O ex-ministro ressalta que esse tipo de crise é baseado em expectativa.
Para o economista Paulo Nogueira Batista Jr., professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), recuperar as contas externas sem comprometer o emprego é um desafio contraditório porque, para reduzir o desequilíbrio das contas externas, o governo teve de adotar política fiscal e monetária que aumenta o desemprego. ‘‘O governo está sacrificando o emprego e o salário real para melhorar o resultado da balança de pagamentos em conta corrente’’, diz ainda o economista, que prevê um quadro de recessão, com queda no nível atividade econômica no começo deste ano.
Para o economista da FGV, apesar das medidas adotadas pelo governo, o Brasil continua numa posição frágil. Não se pode dizer que a situação no front externo esteja tranquila, mesmo o Japão tendo tomado a decisão de injetar mais dinheiro na economia, ao reduzir o imposto para pessoa física e intervir nos mercados para conter queda do iene. Nogueira Batista Jr. acha que, nesse ritmo de redução de juros, as taxas continuarão altas por muito tempo ainda. As taxas atuais são uma ‘‘aberração’’ em termos reais e totalmente fora do padrão mundial.
Os juros no Brasil, compara Nogueira, são três vezes maiores do que nos países do Sudeste Asiático, que estão no epicentro da crise. Essas altas taxas levam a duas leituras, diz. Uma positiva pode indicar que o Brasil é dominado por uma Banco Central superagressivo e outra, negativa, que o País é mais frágil do que se imagina, o que obriga o BC a tomar atitudes excêntrica, analisa.
O economista da FGV prevê uma melhora significativa nas contas externas em 98, mas prefere não arriscar nenhum palpite. O déficit em conta corrente deve cair basicamente por causa da desaleceração econômica, que vai criar um excendente grande de exportação de produtos agrícolas e industrializados. O efeito dominante na balança comercial será o da recessão no primeiro trimestre do ano e não do ganho de competitividade.
Em termos competitivos, afirma o economista, o País está perdendo espaço, apesar dos incentivos às exportações, para os países que tiveram forte desvalorização de moeda. Mesmo que a economia se recupere a partir do segundo trimestre será uma recuperação modesta, que não resolverá o problema.

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