Luto não poupa ACM de ataques do Planalto
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terça-feira, 06 de março de 2001
Agência Estado De Brasília 
Apesar do luto oficial por conta da morte do governador Mário Covas, nem o Palácio do Planalto nem o PSDB darão trégua ao senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) esta semana. Convencidos de que o propósito de ACM é destruir o presidente e taxá-lo de corrupto com suas denúncias, o Planalto e o PSDB vão manter o senador na mira, evitando apenas a pompa de uma solenidade para lançar o plano de ação governamental e a guerra pública da tribuna do Congresso nos próximos dias.
Estamos todos muito tristes e vamos conduzir as coisas com o recato natural, mas acho que a maior homenagem que a gente pode prestar ao Covas é continuar trabalhando, disse ontem o secretário-geral e coordenador político do governo, ministro Aloysio Nunes Ferreira. Nesta linha e atendendo a pedido do presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), Fernando Henrique entrega hoje aos presidentes e líderes dos partidos aliados o programa do governo do biênio 2001/2002. A cerimônia festiva para anunciar os investimentos de R$ 61,9 bilhões na área social, porém, foi cancelada.
Diante dos rumores da apresentação do plano, Bornhausen tratou de telefonar para Fernando Henrique logo cedo. Argumentou que o PFL depende do plano para repactuar a aliança com o governo e que não teria condições de adiar a reunião da executiva nacional marcada para amanhã.
Como não convinha nem ao partido nem ao governo adiar a esperada manifestação oficial de apoio do PFL ao Planalto e a definição do espaço de independência de ACM e seu grupo, Fernando Henrique comprometeu-se a enviar cópias do plano aos dirigentes pefelistas. A reunião da executiva está mantida para as 9 horas desta quinta-feira.
O formato da reunião pefelista, para tentar acalmar ACM e evitar o confronto com o presidente do partido, está sendo articulado pelo vice-presidente Marco Maciel, que acabou viajando com Bornhausen para o velório do governador em São Paulo. ACM também decidiu prestar sua última homenagem a Covas, mas nem isso garantiu uma trégua. Enquanto todos voavam para São Paulo, o senador Waldeck Ornélas (PFL-BA) sustentava em Brasília que os fatos denunciados por ACM estão se confirmando.
Embora tenha desistido de subir à tribuna para seu primeiro discurso depois da demissão do Ministério da Previdência, no dia 23, Ornélas sustentou ontem a necessidade de furar os tumores da corrupção no governo, citando seu próprio trabalho de combate à fraude e aos fraudadores da Previdência. Ele não quis antecipar sua posição em relação ao Planalto, já que o discurso foi adiado para a semana que vem, mas revelou sua mágoa. A maneira como fui demitido me libera para me posicionar da forma que eu quiser, com responsabilidade.
Enquanto os pefelistas tentam costurar o racha interno para evitar brigas na executiva, o PSDB, que parou para reverenciar Covas, manteve a guerra no site do partido na internet. Estamos em uma luta que é de todo o time tucano, e não em uma batalha isolada, explica um cardeal do PSDB, ao salientar que o líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), não falara sozinho na véspera, ao declarar guerra a ACM. No portal do PSDB, Fernando Henrique é citado como vítima de uma campanha rancorosa e infame movida por ACM e seus famigerados dossiês que não passam de um blefe.
O editorial tucano refere-se a ACM como cristão novo do moralismo, paxá civil do regime militar e eminência parda de Fernando Collor e critica o autoritarismo e a prepotência do senador, com o que ele demonstra não ter limites em seu afã de preservar sua cota de poder feudal a escoar-lhe pelas mãos. Segundo o cardeal do PSDB, todos os afilhados de ACM, inclusive aqueles alojados em cargos federais na Bahia, perderão seus postos, a menos que os padrinhos carlistas deixem claro que estão com o governo na reunião da executiva. Como Fernando Henrique não tem interesse em enfraquecer o PFL na aliança, o grupo ligado a Bornhausen e Maciel aguarda apenas que a executiva confirme o apoio ao plano e ao governo, para trabalhar uma nova aproximação com os carlistas, mantendo sua cota de poder.


