Brasília Angustiado e deprimido com a interminável crise, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um apelo dramático aos poucos interlocutores políticos que lhe restaram no governo: pediu ajuda para ''soldar'' a estraçalhada base aliada e atenção especial ao PMDB. A oito meses do fim do mandato, Lula está preocupado com os reflexos da enorme turbulência sobre o projeto de reeleição. Diante de uma crise atrás da outra, o presidente não conseguiu até agora definir a coordenação de sua campanha e nem mesmo montar os sonhados palanques nos Estados.
Lula acha fundamental atrair o PMDB para ganhar o segundo mandato e não ficar refém de partidos pequenos. Desprotegido na arena política, o presidente reaproximou-se do ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu, que, mesmo cassado pela Câmara, tem conversado com peemedebistas na tentativa de aparar arestas, pedindo apoio a Lula.
Há cerca de duas semanas, por exemplo, Dirceu encontrou-se com o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), candidato à reeleição e hoje adversário do PT. No seu diagnóstico, o PMDB é a ''chave da reeleição'' de Lula. Em conversas reservadas, o ex-ministro afirma que o DNA do PMDB é desenvolvimentista, ''como o do PT''.
Levantamento feito pelo Planalto, no entanto, indica que o partido do ex-governador Orestes Quércia, irremediavelmente dividido, está mais perto de firmar parcerias com o PSDB em colégios eleitorais importantes, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O namoro de peemedebistas com tucanos também vai muito bem em Alagoas, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Distrito Federal.
Lula mostra inconformismo com esse cenário. O novo ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, disse que a articulação política do governo, de agora em diante, ajudará a criar um processo ''estável e tranquilo'' para as eleições de outubro. ''Não vai ser um ministério para articular a campanha do PT'', garantiu Tarso. ''O que pretendemos é criar condições para que as eleições transcorram de forma adequada, num ambiente político saudável, e tenho condições de provar que não farei um trabalho partidário. Vou conversar com quem quer que seja, dos aliados à oposição.''
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), aplaudiu a iniciativa. Para ele, o Planalto precisa refazer com rapidez a interlocução com o Congresso e os partidos. ''No ano passado, o Congresso fez as investigações que a sociedade exigiu e compatibilizou a crise com o funcionamento da Casa. Agora, tudo está mais difícil por causa da exacerbação dos ânimos com a proximidade das eleições'', argumentou.
Após a difícil maratona palaciana para ''juntar os cacos'' expressão ouvida com frequência no Planalto e retomar votações importantes, como a do Orçamento, a ordem de Lula é uma só: buscar a ''coesão política'' na equipe. Desfigurado desde novembro do ano passado, quando Dirceu foi abatido pelo escândalo do mensalão, o governo foi ferido de morte há seis dias, com a saída do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, acusado de ordenar a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa.
As baixas dos dois ministros mais poderosos da República somam-se a outras degolas na seara petista. Todos os homens do presidente se foram com as sucessivas crises, no Planalto e no PT. ''Mas eu quero conversar com todos que passaram pelo governo: vou falar com Dirceu, com Palocci, e ouvir as várias posições para trabalhar com unidade na articulação'', avisou Tarso, diplomático.
Para completar o inferno astral, Lula perdeu na semana passada colaboradores importantes, como Jaques Wagner (antecessor de Tarso) e Ciro Gomes (ex-Integração Nacional), que deixaram o ministério para disputar as eleições. Tanto Wagner, que concorrerá ao governo da Bahia pelo PT, como Ciro candidato do PSB a deputado federal e também cotado para vice na chapa de Lula tinham experiência política e atuavam como seus conselheiros. Os sobreviventes atestam que hoje o presidente está só, ressabiado e parece ainda não acreditar no que aconteceu.

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