Brasília - Depois de quase dez meses de investigações, o relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), prepara-se para enfrentar sua última batalha na Comissão: ver o seu relatório com 1.828 mil páginas aprovado amanhã. Convicto de que fez um bom trabalho, Serraglio defende seu relatório com unhas e dentes e rebate as críticas a eventuais erros do texto. Argumenta ainda que o governo corre o risco de sair ainda mais desgastado do escândalo do mensalão, caso a CPI dos Correios termine sem a aprovação do relatório final. Leia os principais trechos da entrevista com o relator.

Agência Estado - Como o senhor vê as mudanças propostas pelo PT ao seu relatório?
Osmar Serraglio - Acho natural. Só faltava eles concordarem (risos). É o direito de espernear e de não querer o relatório como está. Agora como eu fiz, o relatório está certo. Diante dos fatos, não há como resistir. A verdade sempre vem à tona e não adianta esconder nada.

AE - O senhor pretende fazer alterações no seu relatório e atender reivindicações do PT?
Serraglio - Os pedidos que o PT faz não procedem. Não tem sentido mudar a conceituação do mensalão como querem. Aliás, o que eles querem é uma linguagem menos contundente. Eles querem, por exemplo, que eu coloque que o episódio de Minas Gerais, envolvendo o senador Eduardo Azeredo (PSDB), foi a gênese de tudo. E isso não eu concordo.

AE - A Brasil Telecom, que era controlada pelo banqueiro Daniel Dantas, foi apontada como uma das fontes do valerioduto. O senhor vai pedir o indiciamento de Dantas?
Serraglio - Não me oponho a pôr o nome dele no relatório. É uma coisa para ser pensada. Mas, a rigor, não se pode culpar uma empresa por ela dar recursos. Uma empresa está liberada para pôr recursos onde quiser.


AE - O senhor vai retirar do relatório os pedidos de indiciamento dos ex-ministros Luiz Gushiken e José Dirceu?
Serraglio - Acho difícil. Vou ter de estudar. Mas eles (os petistas) não leram o relatório e ficam dizendo que falta consistência técnica e jurídica para esses pedidos de indiciamento. Isso é discurso político. Se eles vierem com um discurso técnico, eu estudo a proposta. Onde possa haver equívocos, eu analiso.

AE - Os parlamentares do seu partido, o PMDB, deverão votar contra o seu relatório.
Serraglio - O PMDB votar contra é um paradoxo. Não acredito que votem contra até porque até onde eu sei o partido está sendo valorizado e se orgulha do meu trabalho.

AE - O que o senhor acha da estratégia do governo de derrubar o seu relatório?
Serraglio - É mais um desgaste para o governo que já está cheio de chagas. Se eu fosse governo, mandaria aprovar. Até porque tudo o que está no relatório já foi amplamente divulgado e falado. Mas querem expor-se ao pelourinho, tudo bem.

AE - O senhor concorda em retirar a parte do relatório que fala sobre a ciência do presidente Lula a respeito do mensalão?
Serraglio - Não mexo nisso. Coloquei com todas as letras que o Lula sabia do esquema. Não vou privilegiar ninguém. É a prova de que não quis agradar gregos e troianos.

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