Curitiba - Em Curitiba para a solenidade de posse do desembargador Ricardo Marques da Fonseca, primeiro magistrado cego do País, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou um discurso contra o preconceito, relembrando um mote do final da sua campanha eleitoral em 2006, quando atribuiu os ataques à sua gestão a uma visão preconceituosa dos opositores. ''Eleição de um presidente da República sem diploma universitário é superar barreiras'', discursou ele. O presidente Lula disse que sua deficiência ''talvez seria a intelectual'', mas acrescentou que sua trajetória para enfrentar o preconceito ''foi superada'', quando se tornou chefe maior do Executivo.
Lula admitiu que ''não costuma'' participar de posse de magistrados nos Estados e acrescentou que resolveu integrar a solenidade do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9 Região por conta do ''simbolismo'' que ela representaria. A agenda do presidente Lula na região Sul do País, contudo, não se limita à capital paranaense. O petista segue hoje no início da manhã para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, onde marca presença numa inauguração de uma obra de trecho rodoviário. Ontem, ele não falou com a imprensa em Curitiba e enfrentou um pequeno protesto de pessoas ligadas aos sindicatos dos bancários e dos Correios, que seguravam faixas em frente ao prédio do TRT, no Centro.
''Há pouco mesmo eu estava lendo que o Obama recebe quatro vezes mais ameaça de morte do que o Bush recebia. Qual a razão? Porque não há tempo ainda para se julgar o conteúdo da sua gestão. O motivo é porque ele é negro. Se nos Estados Unidos, um país desenvolvido, o preconceito está arraigado assim, imagina no Brasil?'', disse ele. Lula também citou reações negativas que diz ter recebido quando indicou um ministro negro (Joaquim Barbosa) ao Supremo Tribunal Federal (STF), quando ''levei os catadores de papel ao Palácio do Planalto'' e quando ''coloquei o chapéu do MST na cabeça''.
O petista também falou do tratado internacional sobre pessoas com deficiência que foi incorporado no Brasil em 2008 ''com força de norma constitucional''. Segundo Lula, trata-se de uma ''mudança de paradigma''. O desembargador Fonseca também citou o marco e traduziu o que ele representaria: ''Houve uma mudança de conceito. Hoje a deficiência está inserida num conceito social. A deficiência não é um problema da pessoa, é um atributo da pessoa, assim como gênero, raça. Mas ter ou não acesso a direitos é uma questão da sociedade'', disse ele.
O nome do desembargador foi escolhido por uma lista tríplice apresentada pelo TRT. Vítima de uma paralisia cerebral quando nasceu, o que provocou a perda parcial da visão, Fonseca ficou totalmente cego aos 23 anos, quando cursava o terceiro ano da faculdade de Direito. Conseguiu se formar com apoio dos colegas e depois enfrentou dificuldades para conseguir o primeiro emprego. Chegou a ser reprovado, há 20 anos, no concurso para juiz do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, justamente por ser cego. Em seguida, passou no concurso para procurador do Trabalho.
Toffoli
Ontem, acompanhando o evento ao lado do presidente Lula, estava o advogado geral da União, José Antônio Dias Toffoli, indicado ontem pelo petista para a vaga aberta de ministro do Supremo Tribunal Federal. O senador Osmar Dias (PDT), que viajou a Curitiba junto com o presidente Lula, disse em entrevista à imprensa que foi procurado por Luiz Fachin, cotado para a mesma vaga. ''Há mais de cem anos que o STF não tem um ministro paranaense. Ele seria um representante sério, competente. É uma unanimidade. Acho que a próxima vaga pode ser do Fachin'', declarou o pedetista.
Osmar, contudo, se esquivou dos assuntos partidários. O governador Roberto Requião (PMDB) não apareceu no evento, apesar das tentativas do presidente Lula de unir Osmar ao PMDB de Requião.

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