Brasília - Em fevereiro do ano passado, quando estourou o escândalo chamado Waldomiro Diniz – o assessor da Casa Civil flagrado pedindo propina a um bicheiro –, o ministro José Dirceu comentou com um amigo que, se a CPI dos Bingos fosse criada, sairia do governo e reassumiria seu mandato de deputado para rebater as denúncias. Deprimido, chegou a pedir demissão, não aceita por Lula naquela época.
  Agora, seu estado de ânimo é mais ou menos semelhante. Dono de comportamento ciclotímico, Dirceu alterna momentos de desalento total com uma ponta de esperança. Acha que o governo erra ao dar ênfase excessiva ao ajuste fiscal. ‘‘Esses juros têm de baixar. É preciso garantir recursos para o desenvolvimento social e investimentos em infra-estrutura’’, argumenta.
  Em conversas internas no PT e até em debates públicos, Dirceu é categórico: ‘‘o País não é só política monetária e fiscal’’. Na quarta-feira, em Lisboa, ele aumentou o tom das críticas à condução da política monetária, durante almoço no Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais. Disse que, no Brasil, o Banco Central é ‘‘muito autônomo’’ e quer alcançar uma meta de superávit primário (economia de gastos para pagamento de juros) de 5%, mas, se ninguém protestar, esse porcentual vai para 7% do PIB e a taxa de juros, para 20%.
  Nos diálogos com seus companheiros do PT – partido que presidiu de 1995 a 2002 –, Dirceu reclama do fato de nunca poder externar o que pensa porque tudo o que parece contrário ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, transforma-se numa crise. Pior: acredita que é o próprio Palocci quem estimula esse clima contrário ao debate. ‘‘Assim vira pensamento único’’, lamenta.
  As queixas de Dirceu, no entanto, não são isoladas. Depois de rusgas com a Fazenda, o ministro da Educação, Tarso Genro – um dos formuladores do PT –, vai pelo mesmo caminho. ‘‘Tenho proximidade com o pensamento do Dirceu sobre questões econômicas’’, observa Tarso. E mais não diz. ‘‘Sou disciplinado’’, alega. (V.R.)

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