Lula rejeita pressões e só altera dois ministérios
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terça-feira, 22 de março de 2005
Kennedy Alencar<br> Folhapress 
Brasília Numa tentativa de fugir do carimbo de arranjo fisiológico explícito para sua reeleição e contrariado com o ultimato do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu ontem mudar apenas dois ministérios (Previdência e Planejamento). Suspendeu, pelo menos por ora, a reforma mais ampla que adiava desde novembro.
Após reunião com a ala governista do PMDB, Lula decidiu indicar o senador peemedebista Romero Jucá (RR) para ministro da Previdência, em substituição do também senador peemedebista Amir Lando (RO), e nomear o deputado federal petista Paulo Bernardo (PR) para o Planejamento, até então ocupado pelo interino Nelson Machado.
Com a surpreendente decisão, Lula reforça a blindagem do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, vitorioso mais uma vez, e aposta numa aproximação maior com o PMDB para 2006, em detrimento do PP. Bernardo é um petista afinado com Palocci que tem boas relações com o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, político que também sai fortalecido - retomou articulações políticas e comandará negociações da reeleição em 2006.
A exemplo de Dirceu e Palocci, Bernardo não deverá concorrer em 2006, apostando na reeleição de Lula e evitando ser ministro de apenas um ano. Quem quiser disputar eleições em 1º de outubro de 2006 deverá se desincompatibilizar dos cargos até a meia-noite de 31 de março de 2006 - seis meses antes, como reza a lei. A idéia de Lula e Dirceu é recompor pontes com a ala oposicionista do PMDB, reforçando o grupo governista, que também sai fortalecido da reforma. Jucá é ligado ao presidente do Senado, o habilidoso Renan Calheiros (AL).
O ultimato de Severino, que cobrava a nomeação de um ministro do PP para evitar aliança do partido com a oposição, serviu de pretexto, mas não apenas isso. Lula ficou mesmo irritado com o ultimato. Avaliou que, se fizesse uma reforma mais ampla, perderia autoridade e pagaria um preço político alto, desmoralizando-se perante aliados. O próprio Lula avalia que demorou a decidir e complicou tudo.
Não apenas o PP mas o PMDB, que relutava em tirar Eunício Oliveira (CE) das Comunicações, e o PT, que buscava derrubar Aldo e manter seus ministros, pressionavam Lula. Por isso, ele usou o ultimato de Severino para reagir. A avaliação de Lula e Dirceu é que é mais provável conseguir a adesão do PMDB à reeleição do que a do PP, partido que tem mais divergências com o PT nos Estados. Ou seja, dificilmente o PP estará na chapa da reeleição de Lula.
A reforma, antes pensada para tirar petistas do governo, acabou sem baixas no PT. O partido manteve as 19 posições entre 35 ministros e secretários com status de ministro. O único demitido foi Lando, do PMDB, substituído por outro senador. Bernardo entrou numa vaga que já era do PT. Hoje, Lula deverá realizar reunião ministerial para dizer a todos os ministros que está encerrado o assunto sobre mudanças no primeiro escalão e que todos, inclusive aqueles que foram avisados de que sairiam e ficaram, como o petista Humberto Costa (Saúde), devem trabalhar normalmente.


