Brasília - Três dias depois de causar polêmica ao reclamar do comodismo dos brasileiros que não procuram taxas mais baixas de juros no mercado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apontou ontem como um dos erros de seu governo a falta de instrumentos opcionais aos juros altos para controlar a inflação entendida ainda como a sua principal tarefa.
''Eu estou convencido de que os juros não podem ser o único instrumento para controlar a inflação; se for assim, nós passamos muita responsabilidade para o Banco Central e tiramos das nossas costas a responsabilidade'', disse o presidente, reconhecendo a origem da culpa pelo juros altos no Executivo. ''O culpado somos nós, que definimos a meta (de inflação, perseguida pelo Banco Central)'', completou.
Os juros altos foram o assunto mais recorrente durante a primeira entrevista coletiva à imprensa, concedida pelo presidente após 849 dias de mandato. Ao longo de uma hora e dezenove minutos de perguntas e respostas, Lula deu sinais de que não está em curso nenhuma guinada na política econômica, embora, em dado momento, tenha lançado uma certa dose de suspense no ar: ''Nem tudo o que você pode fazer na economia, você pode avisar antes, porque se avisar não faz'', disse, citando o deputado Ulysses Guimarães.
Um jornalista que representava as emissoras de rádio perguntou se o presidente dormia bem vendo seu governo gastar mais com o pagamento dos juros num mês do que com investimentos em infra-estrutura durante um ano. ''Eu durmo com a minha cabeça tranquila, durmo o sono dos justos todo santo dia, sempre com a preocupação de que preciso fazer mais (...), muitas vezes limitado por circunstâncias que não dependem da minha vontade'', resumiu, depois de listar realizações de seu governo.
Ao pedido de que relacionasse os três maiores erros de seu governo, Lula pensou: ''Olhe, é difícil reconhecer um erro num governo que acerta tanto''. Em seguida, mencionou a falta de obras nas rodovias, como um erro ''muito forte'', junto com a falta de alternativa às altas taxas de juros para combater a inflação. Levantou dúvidas se a falta de maior empenho na eleição a presidente da Câmara, em fevereiro, teria sido um erro. Pouco antes, havia chamado o deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) de ''aliado''.

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