Brasília - Em meio às denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou o novo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que o Ministério Público deve levar em consideração em seus trabalhos a biografia dos investigados.
''A única coisa que eu peço é que uma instituição que tem o poder que tem o Ministério Público brasileiro, garantido pela Constituição, tem o dever e a obrigação de agir com a máxima seriedade, não pensando apenas na biografia de quem está fazendo a investigação, mas pensando, da mesma forma, na biografia de quem está sendo investigado'', afirmou Lula na última cerimônia de posse de um procurador-geral da República em que participa como presidente da República. E acrescentou: ''No Brasil, dependendo da carga de manchetes da imprensa, a pessoa já está condenada. Depois, não adianta ser absolvida, porque não valeu nada aquilo, a pessoa já está condenada''.
O discurso do presidente vem de encontro com o apelo feito por Sarney aos colegas no dia 16 de junho, no primeiro discurso que fez sobre a crise no Senado. ''Uma injustiça julgar um homem como eu, com tantos anos de vida pública, com a correção que tenho de vida austera, de família bem composta, que tem prezado sua vida para a dignidade da sua carreira'', disse Sarney à época.
A declaração de Lula coincide com a publicação de nova denúncia do jornal ''O Estado de S.Paulo''. Gravações feitas pela Polícia Federal com autorização judicial, durante a Operação Boi Barrica, revelaram a prática de nepotismo pela família Sarney no Senado e vincularam o presidente da Casa ao ex-diretor-geral Agaciel Maia na prestação de favores por meio de atos secretos. Em uma das conversas, o empresário Fernando Sarney, filho do senador, diz à filha, Maria Beatriz Sarney, que mandou Agaciel reservar uma vaga para o namorado dela, Henrique Dias Bernardes.
Sem esse cuidado para não antecipar juízo sobre os investigados, avisou Lula, o Congresso pode se sentir motivado a promover alterações na Constituição para reduzir os amplos poderes de que dispõe o Ministério Público. ''Nós sabemos que a mudança nunca será por mais liberdade, mas por mais castramento (sic)'', disse Lula.
Apesar do apelo e de criticar o ''show de pirotecnia'' promovido em alguns casos, o presidente disse que jamais vai interferir em investigações feitas pelo MP. ''Eu não tenho dúvida que neste um ano e meio que vamos ter pela frente jamais farei um pedido, um alfinete para impedir qualquer investigação'', afirmou.
Prova disso seria o fato de ter indicado, desde o primeiro mandato, os procuradores mais votados pela categoria e incluídos em lista tríplice não-oficial encaminhada ao Palácio do Planalto. ''Isso foi por garantia minha. Se amanhã alguém disser que o procurador não é bom, a culpa é da categoria'', disse o presidente, arrancando risos da plateia. Pela Constituição, o presidente pode escolher livremente um membro da carreira para comandar o Ministério Público.

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