Torres - Mesmo dizendo que ''não foi eleito para ficar falando mal'' dos outros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atacou ontem pelo terceiro dia consecutivo seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Sem citar o nome do tucano, disse que muitos torciam pelo ''fracasso'' de seu governo e que há muita gente ''engraçadinha'' com a idéia de que os problemas do país podem ser resolvidos por ''mágica''. Em Torres (litoral norte do Rio Grande do Sul), onde assinou ordem de serviço para o início da duplicação da BR-101, o presidente, além das críticas a FHC, fez seguidos elogios à sua administração. Disse que, em 23 meses de gestão, já fez o ''impossível''.
Em sua fala, de 28 minutos e toda improvisada, Lula pontuou diferentes momentos com seus ataques a FHC - que na última segunda-feira rotulou de ''incompetente'' a atual gestão. Ontem, em meio a uma das cutucadas, cometeu um ato falho ao dizer que havia perdido quatro eleições a presidente, em vez de três (1989, 1994 e 1998, sendo as duas últimas justamente para FHC).
''Eu lembro que muita gente torcia para o fracasso de nosso governo. Havia pessoas que imaginavam: 'Esse pessoal ganhou as eleições, esse cara o máximo que ele estudou foi um curso de torneiro mecânico, o país vai entrar numa degringolada. A economia vai fracassar, não vai exportar.' (...) O que eles não perceberam é que as quatro derrotas que eu tive para chegar à Presidência da República me transformaram num ser humano calejado.''
A seguir, ao chamar de ''excepcional'' o crescimento de 5,3% do PIB entre janeiro e setembro deste ano, Lula rebateu as críticas do ex-presidente em relação às políticas sociais do atual governo. ''A dívida social foi se acumulando ao longo do século passado (...) Sempre tem muita gente engraçadinha no nosso meio que acha que a gente pode num passe de mágica resolver os problemas da sociedade, como se não fossemos presidentes, governadores ou prefeitos, como se fossemos deuses, um ser onipotente.''
Ao lado de deputados, senadores, quatro ministros e dos governadores Germano Rigotto (PMDB-RS) e Luiz Henrique (PMDB-SC), num palanque à beira da BR-101, Lula disse estar ''feliz'' por acreditar que pode realizar no governo além do que prometeu em campanha. ''Estou feliz porque acho que nós vamos conseguir fazer mais do que prometemos durante a campanha, sem ficar olhando o adversário. Eu não fui eleito para ficar falando mal de ninguém. Eu fui eleito para governar.''
Lula, ao enaltecer sua gestão, citou a aprovação de reformas e do Estatuto do Idoso. ''Com o apoio dos governadores, de todos, com o apoio dos partidos políticos, na sua grande maioria com pouquíssimas exceções, começamos fazendo o impossível. Porque era impensável num país do tamanho do Brasil, com os problemas do Brasil, em dez meses, fazermos a reforma da Previdência Social e a reforma tributária, que ainda falta um pouco a ser feita.''
Ao final de sua fala, usou o anúncio da duplicação da rodovia, prometida e não-cumprida no governo tucano, para mais uma vez alfinetar FHC. ''Nós temos de recuperar (as estradas), porque, neste país, tem gente que governou e não foi capaz de fazer manutenção nas coisas que já existiam neste país.''Eu não quero saber quem prometeu (duplicar a BR-101). Eu sei que muitos já prometeram. Eu nunca prometi porque eu não prometo aquilo que eu não conheço, e não prometo aquilo que eu não sei se eu posso fazer ou não.''
São notórias algumas das promessas não-cumpridas por Lula. Na campanha, disse que dobraria o poder de compra do salário mínimo, mas, até a metade do mandato, o reajuste real foi de 2,4%. Em 2003, prometeu assentar 60 mil famílias, mas só beneficiou 36 mil.

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