Lula pretende fazer um governo itinerante
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de janeiro de 2003
João Domingos e Vera Rosa<BR>Agência Estado 
Brasília Quatro dias depois de tomar posse, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apressou uma decisão: vai fazer um governo itinerante, já batizado por seus colaboradores de ''pé na estrada''. Para não ser prisioneiro da solidão do Palácio do Planalto, onde, mesmo cercado de assessores, estará sempre distante do povo, Lula fará viagens constantes ao interior do País. São aqueles locais que os políticos chamam de rincões e que a sociologia conhece como ''Brasil profundo'', termo que o presidente adotou para suas andanças.
''Não quero que nenhum ministro meu tome medidas apenas com base em
estatísticas, pisando num tapete vermelho, verde ou azul'', afirma Lula. Desde que se instalou no terceiro andar do Planalto, Lula cumpriu uma agenda agitada, com uma maratona de reuniões dentro do palácio. Não teve tempo para descansar e, na sexta-feira, nem almoçou: depois da reunião do Ministério, comeu apenas um lanche. Até agora, Lula só sentiu falta de uma coisa no gabinete: uma máquina de café expresso, que já mandou comprar.
Mas o presidente não pretende ''viver'' lá dentro. Fiel ao estilo protagonizado em suas campanhas, acredita que, nas ruas, pode ouvir as pessoas e suas expectativas. Sentir o calor humano nos locais mais distantes do centro do poder. Com as sugestões, promete reunir a equipe para pôr em prática o estilo Lula de governar, que ele define como ''vigilante''. ''Desde um time de futebol até um Ministério, o presidente tem de estar ali puxando a orelha, dando os parabéns, cobrando metas, exigindo, para que as coisas aconteçam'', insiste ele para seus colaboradores.
A primeira campanha publicitária do governo do PT, no rádio
e na televisão, vai mostrar a viagem que Lula e seus ministros farão aos municípios mais pobres do Nordeste, a começar por Guaribas, no Piauí. A caravana seguirá para o semi-árido na sexta-feira, puxando o anunciado mutirão contra a fome.
Na primeira parada da viagem, os visitantes conhecerão uma paisagem
empoeirada. Localizada a 653 quilômetros de Teresina, Guaribas é sinônimo de precariedade: tem 4.814 habitantes e reúne carências em todas as áreas, da educação ao saneamento básico. Apenas 41,8% dos moradores com mais de 10 anos sabem ler e escrever taxa que é menos da metade da média nacional, de 88,6%.
Depois do Piauí, o presidente e sua comitiva pegarão a estrada rumo
à Paraíba e Pernambuco. A viagem deve terminar no dia 12, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O publicitário Washington Olivetto já se ofereceu para fazer a campanha de combate à fome de graça.
Em fevereiro, Lula partirá para a maratona de reuniões com os governadores.
A idéia é iniciar os encontros pela região da Amazônia. Só que, ao contrário do que se imagina, os chefes de Estado não vão desembarcar em Brasília. É o governo itinerante que irá até eles. ''A cada 90 dias, vou conversar com os governadores não apenas para discutir os problemas das dívidas dos Estados com a União, mas o desenvolvimento regional, porque não se trata de um modelo único'', diz o presidente. (Colaborou Luciana Nunes Leal)


